No editorial da primeira edição da Garagem Hermética, eu digo que os quadrinistas brasileiros são undergrounds não por opção, mas por natureza. Isso acontece pois simplesmente não existe um mercado de quadrinhos nacional que os acolha, e eles são obrigados a viverem num “gueto” restrito a poucos “iniciados”. Mas você provavelmente perguntaria – Como assim não existe mercado de quadrinhos nacional? E quanto a Turma da Mônica?

Bem, ao menos pra mim, um mercado é onde você pode encontrar diversas variedades de um produto, e não apenas um. Haveria então um mercado de quadrinhos nacional, se tivéssemos os mais variados tipos de quadrinhos, de infantis, passando pelos juvenis, até os adultos, como acontece em qualquer país em que realmente existe um mercado de quadrinhos nacional.

O meu grande sonho é um dia chegar numa banca de jornal, e encontrar tantos títulos de hqs brasileiras quanto temos hoje em dia de hqs gringas. Este sonho ainda está longe de acontecer, mas toda longa jornada começa com o primeiro passo. E é este passo que estou dando agora.

Já há algum tempo, tenho batalhado para conseguir um lugar onde pudesse ser realizado uma feira de fanzines, a exemplo das que são realizadas em eventos de animes aqui em São Paulo, como a Fanzine Expo e a Fanzinecon. Feiras assim são importantes, pois incentivam os quadrinistas iniciantes a produzirem. E quanto mais se produz, mais hábil em fazer quadrinhos se fica. O grande problema dessas feiras de fanzines em eventos de anime, é que, apesar de aceitarem qualquer tipo fanzines, os fanzineiros que produzem hqs em estilos que não sejam mangás, acabam desmotivados a participarem, já que o público que freqüenta este eventos, os chamados , costumam na sua maioria ter a mente fechada para outros tipos de quadrinhos que não os seus adorados e idolatrados mangás. O ideal seria se houvesse um grande evento de quadrinhos em geral, onde também fosse realizada uma feira de fanzine, assim o público que freqüentaria seria mais heterogêneo, e isso incentivaria os fanzines dos mais diversos estilos e gêneros de quadrinhos a participarem. Esse evento também contaria com palestras e oficinas voltadas para os vários aspectos da produção de uma história em quadrinhos.

E é algo assim que estou tentando fazer. É claro que a coisa não começará tão grandiosa. Bem, o esquema é o seguinte; eu consegui junto à secretária de cultura de Osasco dois espaços pra divulgação de fanzines e quadrinhos independentes. O primeiro espaço, é o salão de eventos da Biblioteca Municipal de Osasco. Ali eu vou organizar uma feira de fanzines que será realizada mensalmente. Junto com a feira, pretendo também realizar exposições e palestras. Em breve irei divulgar mais detalhes sobre a feira, como datas, inscrição, etc.

O segundo espaço que adquiri, é uma tenda na Feira Cultural que é realizada todo domingo em frente a Prefeitura de Osasco. Além das tendas de artes e artesanato (e agora com a minha, de quadrinhos), essa feira conta também com barracas com comidas típicas, e um palco onde rola shows musicais. É um espaço bem legal e que pretendo aproveitar pra divulgar a produção de fanzines e quadrinhos independentes, e até mesmo tentar criar um novo público leitor de quadrinhos, já que os freqüentadores desta feira cultural não são na sua grande maioria leitores habituais de hqs.

Portanto, além das minhas próprias histórias em quadrinhos, vou vender nesta tenda também hqs de outras pessoas. Por isso, já convoquei os meus “comparsas” habituais de empreitadas “fanzinísticas” como o Felipe, o Rodrigo e o Leo pra participarem também da feira cultural comigo – ae cambada, vocês vão ter que trampar também! =)

Mas a idéia não é ser uma “panelinha”, mas abrir esse espaço pra todos os fanzineiros. Então, se você quiser que a gente venda seus fanzines lá na nossa tenda da feira cultural, entre em contato comigo. Não iremos cobrar nenhuma comissão, pois como eu disse, a minha intenção é simplesmente divulgar a grande produção de fanzines e quadrinhos independentes que temos Brasil afora.

Esses dois projetos, tanto a feira de fanzines na Biblioteca Municipal de Osasco, quanto a tenda de fanzines da Feira Cultural, como eu disse, são apenas o primeiro passo de uma longa jornada. É uma iniciativa pequena, mas que vou fazer de tudo pra que se torne grande. Pois eu cansei de simplesmente ficar reclamando que não há espaço para os quadrinhos nacionais, e resolvi partir pra ação. Cheguei a conclusão que só com a iniciativa dos próprios quadrinistas é que esta porra de mercado de quadrinhos finalmente será criado. Só assim chegará o dia em que um quadrinistas brasileiro finalmente poderá dizer que é underground, não por natureza, mas por opção.


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