Um dos erros mais graves que um historiador pode incorrer é em anacronismo. Por isso há uma grande preocupação por nossa parte nas utilizações precisas dos termos e nas definições conceituais. Historiadores talvez só não sejam mais chatos com definições do que os sociólogos. Os jornalistas, por sua vez, parecem não estar nem aí pra isso. Ao menos foi o que eu constatei ao ler diversas críticas sobre o filme 300 de Esparta em que muitos deles descrevem a sociedade espartana como fascista, incorrendo num dos maiores anacronismos que eu já vi.
Não se deve de forma alguma utilizar um termo ou conceito criado num período posterior ao de um determinado objeto histórico para descrevê-lo. Ainda mais um termo que contém uma carga ideológica tão forte como “fascista”. Ainda que a ideologia da sociedade espartana possa ter influenciado de algum modo a ideologia fascista, não se trata nem de longe da mesma coisa, sem falar que as duas ideologias estão separadas na História por quase trinta séculos.
Até entendo que ao utilizar a palavra “fascista” os jornalistas talvez estejam tentando facilitar a compreensão do leitor que cabulou as aulas de história no ginásio e não lembra muito bem quem eram os espartanos e como eles viviam. Afinal, a proposta da crítica é comentar sobre o filme, e não dar uma aula de história antiga. Mas justamente ao tentar dar uma informação de forma simples e rápida, sem se preocupar em definir muito bem os termos e conceitos utilizados, o crítico induz o leitor há um erro conceitual gravíssimo. Os jornalistas são formadores de opinião, deveriam tomar mais cuidado com isso. A última coisa que precisamos é de um monte de gente associando erroneamente a sociedade espartana ao fascismo após lerem essas críticas. Ser professor de História já não é uma das coisas mais fáceis nesse país, e com os jornalistas ajudando deste jeito então…
Eu mesmo já estou até prevendo a trabalheira que vou ter pra tirar este anacronismo da cabeça dos meus alunos. Porque se deixar a coisa desgringola. É bem capaz de além deles chamarem espartanos de fascistas, também escreverem nas provas que os vikings eram nazistas e os celtas comunistas. É preciso cortar o “mal” pela raiz. Afinal, alguns deles podem querer fazer jornalismo futuramente. =)
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