Texto apresenta número do diabo alternativo, 616

Da Reportagem Local, Folha Ciência, 2 de maio de 2005.

Pergaminho de OxyrynchusVersão do Apocalipse datada dos séculos 3º ou 4º d.CA cifra cabalística já apareceu até no hit de heavy metal “The Number of the Beast”, da banda britânica Iron Maiden: 666, o número da Besta -criatura monstruosa que, de acordo com o Apocalipse, o último livro da Bíblia, viria corromper a humanidade no fim dos tempos. Acontece que o grupo de Dobbink achou uma das versões mais antigas desse trecho, datada dos séculos 3º ou 4º d.C. E o número é… 616.

Na foto ao lado, é possível vê-lo: são as três letras da terceira linha de cima para baixo, khi, iota e sigma (assim como os romanos, os gregos usavam letras para representar os números).

Para quem está olhando desconfiado para a cópia das Sagradas Escrituras que tem em casa, é bom lembrar que essa variante do texto já era conhecida dos antigos cristãos. Santo Irineu de Lião (bispo do século 2º) argumentou que ela estava errada. Pode não passar de um erro cometido por um escriba ou grupo de escribas.

Tudo indica que o número surgiu do costume antigo de traçar correspondências entre cifras ou frases; assim, 666 (ou 616) corresponderia ao nome ou à descrição de alguém que seria a Besta.
A idéia é a seguinte: as letras do nome verdadeiro do indivíduo, ao receberem um valor numérico e forem somadas, dariam a mesma conta de 666. O próprio texto do Apocalipse afirma isso, dizendo que se trata “de um número de homem”. (RJL)

Esse trecho do Apocalipse com o número 616 é um dos vários papiros que foram encontrados na cidade egípcia de Oxyrhynchus. Esses papiros datam dos séculos 3º a.C. ao 8º d.C. e incluem cópias de obras da antiguidade clássica e de textos do novo testamento, muitos deles apócrifos.

Indiferente de qual seja o verdadeiro número da besta (e essa é uma discussão que só deve realmente interessar aos cristãos fundamentalistas e aos metaleiros de plantão), o que eu gostaria de destacar com esse artigo é que erros como esse na transcrição de textos antigos são mais comuns do que se pensa.

Isso acontece porque até a utilização da prensa tipográfica de Gutenberg a partir de 1450, os textos dos livros e pergaminhos eram copiados um a um de forma manuscrita pelos escribas, cuja figura mais ilustrativa são os monges copistas da Europa Medieval. E devemos lembrar que com exceção dos bibliotecários chefes, a maioria desses monges eram analfabetos.

Mas você pode estar se perguntando, se eles eram analfabetos, como eles podiam transcrever um texto? Bem, a pessoa não precisa necessariamente saber ler para poder copiar um texto, ela só deve saber desenhar as letrinhas. E era isso que esses monges faziam, e alguns deles eram exímios desenhistas, tanto que os textos sacros desta época são recheados com belas ilustrações e lindos capitulares (e ao fazer isso o monge deixava o trabalho de copiar um livro ou pergaminho menos enfadonho). Mas ao copiar um texto sem conhecer o seu significado, erros de caligrafia acabam se tornando muito freqüentes. E isso aliado a erros de tradução (devemos lembrar que muito desses textos antigos quando não estavam em latin, estavam em grego) e diferentes interpretações, podem ter alterado o significado original de muitos textos através da História.

Por isso, aqui vai um conselho de um aprendiz de historiador. Não tome algo como verdade absoluta, apenas porque está escrito. E isso vale ainda mais quando estamos falando de textos muito antigos e cujos originais já estão perdidos há muito tempo.