Téchne

Writing!

Eu viverei para sempre.

Eternizado em cada numinosa palavra grafada nestas linhas. Em cada leitor que vivenciar minhas histórias. Em cada um que fizer a história existir enquanto é lida.

Viverei na memória daqueles que recontarem o que contei. E que contarem novas histórias inspiradas pelas minhas, que foram inspiradas por outras, e não haveria como ser de outra maneira. Serei sempiterno enquanto remixado, sampleado, mimetizado.

Eu sou imortal. E como tal viverei sozinho. Pois nem a Morte pode ser minha companheira.

Primeiro Estásimo de uma Cosmogonia Quântica Hesiódica Platônica Ovidiana

No princípio era o Kaos. Massa de informação discorde e disforme. Pacotes de bits fragmentados.

E o Nous do divino Progamador-Aedo vagava pela face do ruidoso abismo, e ao contínuo Kaos decidiu por termo.

Ele convergiu os dados kaóticos em um ponto subatômico. Era a partícula Kernel-Mnemosyne, no qual a divindade instalou seu primeiro programa, Moros.

Em Moros estava o código-fonte do sistema. A linguagem da criação. A narrativa do cosmos vinda da Alta Natureza. Pois o verbo era o Programador-Aedo.

E as cordas quânticas da partícula Kernel começaram a vibrar, criando frequências musicais que foram acompanhadas pelo canto cósmico das Musas.

Dentre as Musas, funções-programa numinosas, estava Calíope, a belíssima voz que brilha no negror da eterna noite, carregando em si a configuração do sistema multiuniversal, formatando o não-ser em ser.

Então ocorreu o Big Reboot e o universo começou a se expandir.

O espaço livre do universo expandido o Programador-Aedo em partições primárias separou.

A primeira partição chamou de Gaia. A segunda, extraída da primeira, chamou de Uranus. E viu que era bom.

No seio de Gaia uma terceira partição foi criada. Era o Tártaro nevoento para onde os programas corrompidos seriam enviados.

Para gerir o novo cosmos, a divindade criadora instalou programas autônomos a que chamou de Titãs. Mas possuíam os Titãs um curvo pensar e foram eles tomados pelo vírus da hybris.

Pela Alta Natureza Criadora foram no cosmos novos programas instalados. Eram os Olimpianos Sempre Eternos, que pelo programa Z comandados, aprisionaram os Titãs infectados no Tártaro e o controle do sistema assumiram .

Com a ordem enfim estabelecida, o sistema palco-universo estava pronto para receber seus programas-atores. E o Programador-Aedo criou o Homem a sua imagem e semelhança.

O Homem carregava em si o código-fonte de Moros. Um roteiro escrito em seu DNA com o mythos a ser protagonizado. Mas era um script aberto, e nessa narrativa logo o Homem estaria improvisando.

Mas se sua peça seria uma tragédia ou uma comédia o Programador-Aedo não sabia. Por uma tragicomédia decidiu então .

E finalizado estava o palco-universo. Configurados e em suas posições estavam os programas-atores. Então o sistema-cósmico foi ligado. E a narrativa da vida (e da morte) começou.

Norte

– O que é isso? – Ela perguntou, mesmo sabendo exatamente o que era.
– Uma bússola, oras. – Respondi, entregando-a para ela. – Não se lembra? Quando perguntei o que você precisava, você me respondeu: “uma bússola e um saquinho de jujubas”.
– E cadê as jujubas?
– Não achei. Mas trouxe um saco de balas dadinho.
– Hunf! Dadinho não é tão legal quanto jujuba. – Ela disse, no seu típico tom ranzinza. – Não dá o mesmo barato.
– Bem, mas é melhor do que nada.
– É, talvez…
Um silêncio se fez. Ela olhava para a bússola em sua mão, contemplando-a, pensativa.
– Tome! Não vou precisar mais dela.
– Mas por quê? – Perguntei, já imaginando a resposta.
– Já encontrei o meu norte. Acho que agora ela será muito mais útil para você.
Ela tinha razão. Dava pra ver que ela não era mais aquela garota perdida e sem rumo que eu conheci há seis meses atrás. Mas agora, quem estava perdido era eu.
– Posso seguir com você, então? Talvez o seu norte também seja o meu.
Ela pensou a respeito, por um momento.
– Tudo bem – Respondeu, afinal. – Não tem graça nenhuma em ser a pessoa mais ranzinza do mundo, se não tem ninguém por perto para ouvir você reclamar.

Cosmogonia

– Para onde foram todos? O que aconteceu com o Mundo?
– Foi cancelado!
– O quê?
– A audiência estava muito baixa e os produtores resolveram cancelá-lo.
– Cancelaram o Mundo?
– Pois é, acontece!
– E quem é você?
– O Autor, muito prazer.
– E o que você está fazendo aqui?
– Na verdade, nem sei… O cancelamento me pegou de surpresa. Não sabia para onde ir…
– E você não pode criar outro?
– Até posso, mas estou sem inspiração. Alguma sugestão?
– Sei lá, não faço a mínima ideia de como se cria um Mundo.
– Bem, há várias maneiras. Pode ser feito através do canto, da escrita, do desenho…
– Pode ser feito em quadrinhos?
– Quadrinhos? Sim… Por que não pensei nisso antes. Um Mundo criado em quadrinhos seria magnífico. As possibilidades seriam infinitas, a diversidade de temas, gêneros, estilos, combinações que não conseguiríamos em nenhuma outra linguagem. O único limite seria a nossa imaginação. Você desenha?
– Bem, eu rabisco um pouco.
– Então está feito. Eu fico encarregado do roteiro e você do desenho.
– Mas…
– Já estou até prevendo! Esse novo Mundo em quadrinhos será um sucesso. Iremos ganhar vários prêmios. E depois podemos até mesmo fazer uma reedição de luxo em capa dura. E dessa vez nem vou precisar descansar no sétimo dia.