Eu não Apoio a HQ Nacional

Antes que você se assuste com o título deste post, eu juro que ele tem um porquê, e eu vou explicá-lo. Afinal, é no mínimo estranho que um autor de HQ Nacional, e inclusive um que até mesmo montou um coletivo pra ajudar na produção de quadrinhos nacional, faça uma afirmação como a do título.

Mas antes de explicar o título quero comentar sobre o que me motivou a escrever esse post. Trata-se da campanha “Eu apóio a HQ Nacional” criada por Carlos Vázquez no fórum HQM. A idéia da campanha é simples. Vázquez criou diversos banner com desenhos e ilustrações de personagens e quadrinhos brasileiros e que devem ser utilizados por aqueles que apoiam a HQ brasileira em suas assinaturas nos fóruns de discussões, comunidades, blogs, etc.

Apesar de se tratar de um ato simples, essa campanha foi uma boa sacada e tem um grande potencial. E isso por um simples e único motivo. Ela foi criada por um leitor.

Mas o que isso tem de mais? – você deve estar se perguntando. Veja, de nada vale dizer que eu apoio os quadrinhos nacionais. Como autor de quadrinhos, minha opinião sobre esse assunto não tem valor algum, já que se trata de uma opinião totalmente interessada. É claro que um autor de quadrinhos irá apoiar a produção de quadrinhos de seu país, seja ele qual for, já que ele é o principal beneficiário da valorização dessa produção em seu país.

No entanto, a opinião de um leitor sobre esse assunto tem um valor tremendo, pois não se trata de uma opinião interessada. Um leitor não ganha nada, a princípio, em dizer que apoia a produção de quadrinhos de seu país. O que importa para o leitor é que ele tenha boas histórias para ler, independente do país onde elas foram produzidas. Então quando um leitor diz que apoia os quadrinhos nacionais, tem muito mais chance de ser ouvido pelos outros leitores, do que se isso fosse dito por um quadrinista.

É por isso que eu digo que essa campanha iniciada por Vázquez tem um grande potencial. Pois as várias campanhas criadas anteriormente semelhantes a essa foram criadas por quadrinistas. E o pior, tinham um apelo nacionalista e ufanista que para mim é um tremendo atraso pros quadrinhos nacionais, pois mais afugenta leitores do que atraem sua simpatia.

Mas no que efetivamente pode ajudar os quadrinhos nacionais essa campanha do Vázquez? Bem, esse simples ato do leitor enunciar que apoia a HQ nacional já ajuda em algo que faz toda a diferença para nós quadrinista: ajuda a diminuir o preconceito contra os quadrinhos nacionais. E esse preconceito está assentado sobre uma generalização idiota (aliás, como toda generalização): “todos os quadrinhos brasileiros são ruins!”.

Eu não sei dizer o porquê desse preconceito, ou como ele surgiu e se espalhou tão amplamente entre os leitores, mas o que eu sei é que ele existe, e como autor de quadrinhos, presenciei ele várias vezes. O leitor com esse preconceito julga todo e qualquer quadrinhos brasileiro como ruim apenas por ser brasileiro. Ele não se dá chance de nem mesmo conhecer a obra antes de julgá-la (daí o preconceito).

Uma campanha de apoio a HQ nacional capitaneada por leitores ajuda a diminuir o preconceito na medida que é um leitor mostrando pra outro leitor que existe sim quadrinhos brasileiros ruins, mas também existe quadrinhos brasileiros bons. Isso é algo que acontece no mercado de quadrinhos de qualquer país, seja o EUA, seja a França, seja a Itália, seja o Japão, e não teria porque ser diferente com o Brasil. Aliás, segundo a Lei de Sturgeon, 90% da produção de qualquer país será ruim, e apenas 10% será realmente boa, algo que eu já expliquei no Manifesto Quartomundista.

E é por isso que eu não apoio a HQ Nacional. O que eu apoio sim, e sempre vou apoiar, são esses 10% de produção nacional de boa qualidade. E é isso que todo mundo deve fazer. Apoiar a produção de quadrinhos brasileiros de qualidade, para que ela aumente cada vez mais. Mas o que todo mundo deve por em mente é que por mais que haja produção de qualidade no mercado de quadrinhos interno de um país, sempre haverá mais produção ruim do que de boa qualidade, pois a proporção 90/10 da Lei de Sturgeon nunca se altera (ainda que essa proporção não seja exatamente 90/10, o que é fato é que a produção ruim sempre será bem maior do que a de boa qualidade).

Os EUA é o melhor exemplo disso. Ele publicam milhares de títulos de quadrinhos por mês no país, mas é possível contar nos dedos da mão (do Lula) quantos são os títulos realmente geniais publicados por mês. Seria então esperar demais que o Brasil produzisse mais títulos geniais de quadrinhos do que o EUA, tendo uma produção de quadrinhos tão pequena a ponto de nem podermos dizer que temos um mercado de fato. Como a atual produção de quadrinhos brasileira está numa média de 10 títulos por mês, será sorte se tivermos ao menos um título genial sendo publicada por mês. E é por isso que a principal bandeira do Quarto Mundo é incentivar o aumento da produção de quadrinhos pelos quadrinistas brasileiros. Pois só aumentando a produção é que faremos com que os títulos bons aumentem, ainda que isso também faça aumentar os títulos ruins. Como eu já disse, isso é algo inevitável. Todo e qualquer país terá sempre um mercado de quadrinhos composto pela maioria de títulos ruins e uma minoria de títulos bons, e o Brasil não tem porque ser exceção.

Mas voltemos a campanha de apoio a HQ Nacional criada por Vázquez. Apesar dela ter sido uma boa sacada, apenas ficar nesse ato de colocar um banner enunciando seu apoio, ainda que seja um ato emblemático, não terá um efeito concreto na produção de quadrinhos brasileira em si. A minha sugestão é que a campanha incentive os leitores a uma atitude mais concreta e prática, como por exemplo, dar um quadrinhos nacional de presente pra quem vc gosta, como eu sugeri no Dia do Quadrinho Nacional.

Poderia até mesmo ser criado uma nova série de banners indicando que a pessoa recebeu um quadrinho nacional de presente de alguém, e que por isso se compromete a também dar de presente um quadrinhos nacional para outra pessoa. Assim será criado uma grande corrente de pessoas dando e recebendo quadrinhos nacionais de presentes. Uma atitude dessas com certeza irá aquecer as vendas de quadrinhos nacionais (os bons quadrinhos nacionais), incentivando seus autores a continuarem produzindo e melhorando.

Essa atitude é também uma boa forma de criar novos leitores livres de preconceitos. Afinal, se dou de presente para um amigo um quadrinho nacional, ele vai no mínimo ler esse quadrinho antes de criticar. Tenha ele gostado ou não da HQ após lê-la, ao menos terá sido um julgamento sincero e livre de preconceitos.

Para concluir, o que nós autores de quadrinhos de fato queremos, não é que as pessoas apoiem os quadrinhos nacionais simplesmente por apoiar. Assim como também não queremos que elas sejam preconceituosas e julgem toda a produção de quadrinhos brasileira como lixo apenas por ser brasileira. O que queremos é que você tenha seus próprios julgamentos e compre os quadrinhos brasileiros que você achar que valem a pena ser comprados. E o melhor apoio aos quadrinhos nacionais que você pode dar é mostrando para outros leitores aqueles quadrinhos brasileiros que você leu e gostou. Você pode dar de presente para eles, ou emprestar, ou até mesmo escanear e enviar para ele uma cópia digital (e como vários autores nacionais já disponibilizam versões digitais de seus quadrinhos, talvez você nem tenha esse trabalho de escanear).

Com esse ato você estará formando novos leitores de quadrinhos brasileiros livres de preconceito, que por sua vez poderá formar novos leitores, e essa corrente a longo prazo irá ajudar a criar e fortalecer um mercado de quadrinhos nacional que poderá produzir cada vez mais obras de boa qualidade. Pois a existência de um mercado de quadrinho forte permite que o quadrinista possa ter uma remuneração suficiente para viver apenas de quadrinhos. Desta forma, ele pode focar todo seu esforço e trabalho apenas em criar boas HQs para você ler. E se você leitor puder contribuir com a criação deste mercado, pode ter certeza, terá sido o melhor apoio a HQ nacional que você deu.

16 respostas para “Eu não Apoio a HQ Nacional”

  1. Isso me fez lembrar de uma coisa que conversei com um amigo há alguns anos, sobre a inveja que senti dos quadrinhos Bonellianos (naquela ocasião), porque havia um grande movimento por parte dos leitores pra salvar alguns títulos do cancelamento. A idéia deles era comprar um exemplar a mais do seu gibi bonelliano favorito e presentear alguém com ele. O tal amigo perguntou por quê ninguém fazia com quadrinhos nacionais. A minha opinião era que, com exceção da Turma da Mônica, os gibis nacionais ainda não haviam conseguindo (naquela época) o afeto do público a ponto de fazê-lo se mobilizar pelos nossos gibis. Se as únicas pessoas que se importavam de "salvar" o quadrinho nacional são os próprios autores, tem alguma coisa bem errada aí.

    Eu não culpo os leitores por terem preconceito com o material brasileiro. Isso vem de décadas passadas, com autores que produziam qualquer porcaria, pensando apenas no lucro imediato, sem se preocupar em garantir o futuro. Isso tudo culminou nos famigerados anos 90, que fizeram um estrago tão grande na HQB, com as bombas nacionais publicadas pela Escala e pela Metal Pesado, que eu achei que nunca mais um leitor brasileiro daria chance pra nós de novo. Parei de dar força pra HQB depois de comprar vários números da "HQ – Revista do Quadrinho Brasileiro" e não encontrar nenhuma(!) história boa em todas as edições que comprei. Acredito que os leitores fizeram o mesmo.

    Mas essa campanha criada pelo Carlos Vásquez, um leitor, é sinal de que uma mudança está, de fato, acontecendo.

  2. Jean, como vc bem sabe, há uma produção atual de quadrinhos brasileiros, que mesmo que não seja genial, possui uma qualidade que não se via há muito tempo neste país. E um dos meus desafios pessoal é mostrar pros leitores essa nova safra de quadrinhos nacionais.

    Pois uma das coisas que me emputece nos caras que só sabem falar mal é que eles não fazem nem idéia que existe essa produção atual. Quando vão criticar os quadrinhos brasileiros, são incapazes de citar uma única hq atual, e ficam sempre nos clichês citando revistas de 10 ou até mesmo 20 anos atrás. Se você pergunta pra eles se eles leram algumas das revistas que foram publicadas neste mês, eles nem mesmo vão saber dizer quais revistas foram publicadas.

    Pô, se é pra criticar os quadrinhos brasileiros, que então pelo menos leia e critique a atual produção, ao invés de ficar batendo nos mesmo cachorros mortos de mais de 10 anos atrás. Os quadrinistas atuais estão fazendo sua parte, produzindo quadrinhos, e nos mais variados estilos e gêneros. Agora cabe a essa galera parar pra ler essa nova safra. É impossível que dada a variedade da produção atual, o cara ache tudo ruim e não tenha um único quadrinhos do qual ele goste.

    Por isso fico feliz que exista leitores apoiando os quadrinhos nacionais. Isso mostra que assim como existe uma nova geração de autores brasileiros produzindo e tentando criar um mercado de quadrinhos, também existe uma nova geração de leitores que diferente das anteriores, já não possui um preconceito contra os quadrinhos nacionais incubado, e por isso aposta e acredita na nova safra de quadrinhos nacionais que está sendo produzida.

  3. Sem dúvida que hoje a HQ nacional tá MUITO melhor do que antes. Ficou incompleto o que escrevi, e deu impressão de que hoje eu não leio mais HQ nacional – o que está longe da verdade. O que era pra eu ter falado era que hoje em dia não compro mais material nacional às cegas, como fazia antigamente. Tem que ter pelo menos um preview com algumas páginas na internet; se me despertar interesse, compro.

    Mas olha, praticamente as únicas HQs "analógicas" que comprei nos últimos 7, 8 anos, foram nacionais. Do quadrinho estrangeiro que me interessa, nenhum sai publicado aqui. Dos estrangeiros tenho acompanhado só as webcomics mesmo.

    Acho que teve pelo menos um ponto positivo no fato do mercado ter sido tão destruído pelo desleixo das gerações anteriores: o mercado ficou tão pequeno, mas tão pequeno, que só ficou nele quem estava realmente a fim de fazer HQ. São esses que vão construir o Novo Quadrinho Nacional.

  4. Cadu, para completar seu pensamento, tenho visto muito disto:

    Comunidade que trabalham com quadrinhos 30.000
    Na mesma comunidade que lêem quadrinhos 00.030

    E não é só quadrinhos nacionais e sim qualquer quadrinhos.

  5. Não creio que seja questão de simplesmente apoiar o quadrinho nacional.

    Não se trata de preconceito ou de sonhos. É preciso ter visão de mercado. O autor deve saber o que os fãs querem ler.

  6. Cara, não existe isso de o autor ter que saber o que as pessoas querem ler, como se ele fosse capaz de ler as mentes das pessoas ou como se todo mundo tivesse gostos iguais.

    Não importa que tipo de história você faz, pra qualquer gênero, estilo, ou escola de quadrinhos, existe público leitor pra ela, às vezes mais, às vezes menos, mas existe. O autor só tem que saber como encontrá-los e cativá-los.

    Então se eu faço quadrinhos de romance, não adianta eu ficar correndo atrás dos leitores de super-heróis, eles não são o meu público. Assim como se eu faço história de super-heróis não adianta tentar vender meus quadrinhos pra quem curte romance.

    Cada quadrinhos tem seu público certo e o autor tem que saber como conquistá-lo. Isso que é de fato ter visão de mercado. E não ficar tentando advinhar o que as pessoas querem, como se o mercado fosse formado por um bloco uniforme e homogêneo de pessoas com os mesmos gostos. Isso não existe.

  7. E deveríamos extinguir a CQB. Eles falam muita besteira sem saber e ao invés de correr atrás de seus objetivos ficam se bajulando mutuamente e espalhando asneiras.

    Berram aos quatro cantos que mangá incentiva o estupro e a pedofilia (Segundo palavras de Emir Ribeiro) e que os americanos roubam suas idéias (Rod Gonzalez), mas só fazem porcaria obsoleta e queimam ainda mais nosso filme perante todo esse mundo das histórias em quadrinhos.

    Quando nós nos livrarmos desse antro de cavernosos imbecis que é a CQB o quadrinho nacional dará um grande salto a frente.

  8. Marcelo, primeiro, não há dificuldade nenhuma em julgar se um quadrinho é de qualidade ou não. Para isso, basta apenas ter conhecimento dos elementos técnicos-literários que formam uma história e de como eles devem ser articulados para construção de uma boa obra dentro de um determinado estilo, gênero, ou escola artística. A partir disso, é fácil julgar por exemplo quando uma narrativa está fluente ou sem dinâmica, quando os personagens são bons ou estão mal construídos, quando os diálogos estão bem feitos ou estão mal executados, e por aí vai. Além de é claro, analisar qual é a proposta e objetivo da obra e vereficar se ela está cumprindo ao que se propôs. É assim que se separa as boas obras, das ruins, e isso é feito a partir puramente da análise dos elementos técnicos-literários, e isso independe de seu gosto pessoal. Eu por exemplo não gosto da poesia lírica helenistica, mas isso não me impede de ser capaz de distinguir dentro desse gênero as boas obras das ruins, através da análise dos seus elementos literários constituintes.

    O leitor comum, obviamente, não saberá separar seu gosto pessoal das qualidades intrisecas de uma obra a partir de uma análise técnica-literária como eu faço, pois ele não possui necessariamente os conhecimentos acadêmicos e literários que eu possuo. No entanto, ele saberá identificar, ainda que não de forma clara e sistemática como eu, quando uma história dentro de um determinado gênero da qual ele goste está bem feita, ou não. E ele faz isso por comparação com outras obras que ele leu. Então quanto mais um leitor lê um gênero, mais exigente ele fica, e mais qualidade nas obras ele quer. Mas justamente por ele fazer seu julgamento apenas por comparação e não por análise técnica, ele só é capaz de analisar a qualidade das obras dentro do gênero que ele aprecia, pois é o gênero que ele lê e reconhece os códigos. Dos gêneros que ele não lê, ele é incapaz de reconhecer os códigos, e portanto não conseguirá a princípio distinguir se uma obra dentro daquele gêneros é boa ou ruim, podendo julgar todas erroneamente como ruins.

    O mundo ideal seria aquele em que todo mundo tivesse conhecimento literário pra analisar obras dentro de qualquer gênero, estilo ou escola artística, para assim não cometer o erro de julgar as obras a partir unicamente de seu gosto pessoal. Mas como eu disse, esse seria o ideal. De todo modo, em ambos os casos, tanto da pessoa que possui conhecimentos literários, quanto do leitor comum, há sim uma capacidade de distinção entre as obras boas e as ruins, ainda que no caso do leitor comum ela se limite apenas as obras dentro do gênero que ele lê e aprecia.

    Segundo, não confuda minha opinião pessoal com os objetivos do 4mundo, eles não são necessariamente as mesmas coisas. Apoiar os quadrinhos nacionais de qualidade não é uma campanha do 4mundo, mas sim minha. Este é meu blog pessoal, e não do 4mundo.

    Já o objetivo do 4mundo é incentivar o aumento da produção de quadrinhos, independente de um julgamento inicial de qualidade, pois a própria produção em si forçará ao aumento da qualidade das obras através da dinâmica do próprio mercado cultural, como está explicada mais claramente no Manifesto (além do fato de que a própria prática de fazer quadrinhos já conduz o quadrinista ao aperfeiçoamento técnico).

    E a ação do 4mundo, ao menos numa primeira etapa que irá durar cerca de cinco anos, é jogar no mercado o maior número possível de publicações, e dos mais variados gêneros e estilos, para que os próprios leitores específicos de cada tipo de publicação possam avaliar e julgar qual delas são boas e irão sobreviver, e qual delas são ruins e irão padecer. E esse julgamento dos leitores funciona de acordo com a dinâmica da comparação de leituras dentro do gênero que ele aprecia, e que foi explicada anteriormente.

    Por fim, não vejo nada de apocalíptico na Lei de Sturgeon, já que o funcionamento dos mercados culturais sempre foi assim, sempre será, e isso nunca impediu os autores de produzirem e os mercados de continuarem existindo.

    É claro que a Lei de Sturgeon é hiperbólica e eu mesmo já aviso, tanto neste post quanto no Manifesto, que é pra não se ater aos números, pois eles não são exatos e absolutos. O que as pessoas devem se ater é ao príncipio básico, que é o seguinte: em qualquer mercado cultural sempre haverá uma quantidade mínima de obras geniais diante de uma gigantesca quantidade de obras que variam de medianas a ruins. Isso é fato e pode ser atestado através da análise de qualquer mercado cultural de qualquer país. E não há nada de ruim ou apocalíptico nisso.

  9. Olá Cadu,

    O seu artigo tem um grande valor pelo engajamento e preocupação com as HQs nacionais, parabéns.

    Mas, além disso, gostaria de dizer que discordo de alguns pontos que você expõe.

    Primeiro, que é interessante apoiar os “quadrinhos nacionais com qualidade”, mas muito difícil julgar o que seriam “quadrinhos nacionais com qualidade”. Ainda mais quando muitos leitores brasileiros ainda dividem quadrinhos entre os de super-heróis e os outros. Assim há leitores que ficam do lado do gênero e criticam todo o restante dos quadrinhos e aqueles que apóiam o que chamam de “alternativo” e se posicionam contra um gênero (super-herói). Apelar para a defesa do quadrinho com qualidade pode ser arriscado em um país que nem mercado direito tem. Por isso, em termos de ação, você mesmo acaba desistindo do apoio ao quadrinho de qualidade e reivindica aumento da produção quantitativa dos quadrinhos. Na verdade, a circulação e aumento da produção dos quadrinhos nacionais é o que há de mais importante na atividade do 4º Mundo. Reivindicar qualidade não deve ser uma campanha do 4º Mundo, uma vez que o coletivo não é uma editora, nem representa os leitores – estes, sim, que podem cobrar qualidade.

    Creio que a reflexão sobre a Lei de Sturgeon tem de se aprimorar mais. O que você coloca em evidência a partir dela – sempre haverá mais porcaria que bons produtos – é uma conclusão apocalíptica que pode gerar consequências distantes do seu objetivo de defender quadrinhos bem-feitos. Primeiro, porque não se pode pensar o mercado como números puros (90% vs 10%), nem se apóiar em conceitos tão retrógados quanto “arte boa” e “arte ruim”. Segundo, se há produção de produtos considerados como “lixo” é porque, provavelmente, há dinâmica de circulação, eles vendem, e isso é importante para qualquer mercado. O consumo é essencial, e é culpa do leitor e do autor/leitor. Ou seja, não é possível cobrar de apenas uma parte uma mudança. As pessoas vão comprar o que gostam ou lhe atraem, muitas vezes sem pensar na palavra “qualidade”. Nesse sentido, o conceito de “Cauda Longa”, que você menciona no manifesto, é bem mais rico, pois saca que os quadrinhos funcionam de maneiras diferentes, porém similares, para leitores diversos.

    Portanto, acho um risco apoiar os quadrinhos nacionais com qualidade. Antes de tudo, apoio a circulação dos quadrinhos, a produção ampliada, promoção de debates e discussões para aproximar os leitores dos autores, estudos acadêmicos sobre as obras e discussão delas pelos leitores – os dois únicos caminhos, ainda incertos, de julgar uma obra. Defender as obras nacionais de qualidade, em um mercado ainda tão pequeno, deveria ficar para segundo plano.

    Por fim, reitero que seu engajamento é importante, principalmente porque ao final do artigo você defendeu boas idéias para serem assumidas pelos leitores de quadrinhos nacionais, como dar de presente a alguém. Essas idéias podem ser efetivadas sim e representam um ato de apoio aos quadrinhos brasileiros, sejam eles de qualidade ou não, nacionalistas ou não.

  10. Cadu,

    Desculpe se confundi o coletivo 4mundo e você, não foi a intenção. Reli com calma o Manifesto e sua opinião em relação a Lei de Sturgeon ganha uma nuance diferente aqui.

    Bem, quanto a análise qualitativa da obra de arte, divergimos nos nossos pensamentos. Defendo que talvez possamos analisar em termos de elementos a poética da obra, mas esteticamente não podemos. Assim, somos capazes de emitir um parecer técnico sobre um quadrinho, filme, etc, mas este é apenas um viés de observação da obra, dentre outros. O juízo de qualidade advém tanto da crítica quanto dos demais receptores. E, para a recepção, algo de pessoal importa. Quando você faz seus quadrinhos, você tanto os executa quanto é o primeiro leitor dela. É através de um jogo entre o pessoal e o que se espera do público leitor que gerará o quadrinho. Então, porque excluir um aspecto pessoal na hora de qualificar uma HQ? Outra, as qualidades da obra giram em torno dela própria, mas são alimentadas por questões externas a ela, que ampliam o escopo de maneiras de se ver a obra. Por exemplo, certas obras carregam valores históricos/religiosos dentro dela e só podem ser compreendidas desvelando-se esses valores.

    Lembro de uma frase dita por um professor meu de Análise Fílmica: "Existem infinitos motivos para se assistir e gostar de um filme e todos eles são justificáveis". Apesar de estudarmos análise técnica de filmes, ainda assim havia sempre uma abertura para saber que a qualidade da obra vem da convergência de vários olhares, sem desprezar o lado técnico, claro.

    Quanto a Lei de Sturgeon, continuo achando-a pessimista, adorniana. Como diz Néstor Garcia Canclini, o consumo serve para pensar. Quando paramos pra ver o consumo desses 90%, notamos que as relações do consumidor com o produto acontecem de maneiras tão diferentes que não dá pra afirmar necessariamente que 90% delas são porcaria. Creio que a coisa é mais embaixo, bem mais embaixo, em relação a isso. As análises costumam ser feitas por pessoas com um conhecimento muito amplo sobre a produção das obras, mas às vezes pouco interesse de saber como as pessoas lêem elas – não estou dizendo que é seu caso.

    Portanto, acredito que o mercado cultural não é tão simples como se diz na "Indústria Cultural" por exemplo.O consumidor deve ser pensado não apenas como classe A, B, C e D. E, geralmente as obras de grandes empresas e produtoras (tipo Hollywood, Marvel, etc.) são tecnicamente bem executadas, seguem proporções harmoniosas na produção artística, embora enfadonhos para algumas pessoas – meu caso e, aposto, que o seu. Portanto a análise técnica não é a preponderante para dar qualidade à obra.

    Apesar de me diferenciar nessas opiniões, não sou contra seu manifesto em prol da qualidade das HQs nacionais. Não me posicionaria como você, mas creio que nenhuma opinião deva ser desprezada. Mas, como você, quero bastante que o mercado de quadrinhos vá pra frente. É bom para nós, quadrinhistas-leitores e para os leitores, em geral.

  11. Bom….Eu estou voltando a ler quadrinhos;;e sinceramente, as hqs internacionais me deixam com uma certa raiva.Não é a toa que muitos desses personagens estão "migrando" para o cinema…acho que passamos da hora de matar ou reinventar esta gama de cliches. Assim como Heath Ledger reinventou o Coringa de uma forma brilhante!
    Quanto as hqs nacionais, bom, o que eu tenho visto ( nao sou expert no assunto ) voltam para cliches americanos ( fantasia colorida, senso de justiça incomum, e superpoderes e bla bla bla)…
    ou na outra vertente, quadrinhos cheios de humor (sinceramente fica dificil rir de alguma coisa), somos o pais das tirinhas de domingo.
    Falo isso como "cabaço" na leitura de quadrinhos, mas que todos os dias procura alguma coisa nacional de qualidade para ler ( atualmente tenho achado isso em sites menos conhecidos).
    Não é a toa que fabio moon, gabriel ba e o Grampá ganham destaques internacionais e nacionais, por que será?? algums dos personagens deles usam fantasias coloridas? se usam seguem o tão conhecido cliche de super homem? a idéia é oiginal? contam historias previsiveis e comuns?
    O que nao concordo e odeio, é essa ideia de apoiar a HQ nacional simplesmente porque tem gente que vive disso.Ora!! eu adoraria viver como "assistidor" de tv o dia inteiro"..sera que alguem me apoiaria porque acha que eu estou sendo importante para alguma coisa? ou a pena falaria mais alto? o que esta faltando então? somos nós leitores que ignoramos o mercado?
    sera isso mesmo?
    Vou viver de quadrinhos! ok. meu personagem vai usar roupas coloridas, ser picado por alguma coisa e ganhar superpoderes, vai ter uma identidade secreta e será muito engraçado..po!! quem aguenta isso???? chega.
    Espero nao ter sido rude com minhas palavras, mas tem coisa que me irrita muito!
    Só acho que devemos pensar como brasileiros, desenhar como brasileiros e não PEDIR para comprarem nossa HQ…flexibilidade na arte é essencial, sempre reinventando e nao copiando.

  12. Rick, visite o blog do Quarto Mundo: http://4mundo.com
    Vc vai se surpreender com a quantidade, e sobretudo, a incrível variedade de quadrinhos que é feito hoje em dia no Brasil, nos mais diversos estilos, gêneros e temas. Há lá HQs parar todo tipo de leitor e para todo tipo de gosto. Não existe porque os quadrinistas brasileiros se limitarem a fazer um único tipo de quadrinhos, seja super-heróis, humor, romance, terror ou o que for.

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