Téchne

Writing!

Eu viverei para sempre.

Eternizado em cada numinosa palavra grafada nestas linhas. Em cada leitor que vivenciar minhas histórias. Em cada um que fizer a história existir enquanto é lida.

Viverei na memória daqueles que recontarem o que contei. E que contarem novas histórias inspiradas pelas minhas, que foram inspiradas por outras, e não haveria como ser de outra maneira. Serei sempiterno enquanto remixado, sampleado, mimetizado.

Eu sou imortal. E como tal viverei sozinho. Pois nem a Morte pode ser minha companheira.

Norte

– O que é isso? – Ela perguntou, mesmo sabendo exatamente o que era.
– Uma bússola, oras. – Respondi, entregando-a para ela. – Não se lembra? Quando perguntei o que você precisava, você me respondeu: “uma bússola e um saquinho de jujubas”.
– E cadê as jujubas?
– Não achei. Mas trouxe um saco de balas dadinho.
– Hunf! Dadinho não é tão legal quanto jujuba. – Ela disse, no seu típico tom ranzinza. – Não dá o mesmo barato.
– Bem, mas é melhor do que nada.
– É, talvez…
Um silêncio se fez. Ela olhava para a bússola em sua mão, contemplando-a, pensativa.
– Tome! Não vou precisar mais dela.
– Mas por quê? – Perguntei, já imaginando a resposta.
– Já encontrei o meu norte. Acho que agora ela será muito mais útil para você.
Ela tinha razão. Dava pra ver que ela não era mais aquela garota perdida e sem rumo que eu conheci há seis meses atrás. Mas agora, quem estava perdido era eu.
– Posso seguir com você, então? Talvez o seu norte também seja o meu.
Ela pensou a respeito, por um momento.
– Tudo bem – Respondeu, afinal. – Não tem graça nenhuma em ser a pessoa mais ranzinza do mundo, se não tem ninguém por perto para ouvir você reclamar.

Cosmogonia

– Para onde foram todos? O que aconteceu com o Mundo?
– Foi cancelado!
– O quê?
– A audiência estava muito baixa e os produtores resolveram cancelá-lo.
– Cancelaram o Mundo?
– Pois é, acontece!
– E quem é você?
– O Autor, muito prazer.
– E o que você está fazendo aqui?
– Na verdade, nem sei… O cancelamento me pegou de surpresa. Não sabia para onde ir…
– E você não pode criar outro?
– Até posso, mas estou sem inspiração. Alguma sugestão?
– Sei lá, não faço a mínima ideia de como se cria um Mundo.
– Bem, há várias maneiras. Pode ser feito através do canto, da escrita, do desenho…
– Pode ser feito em quadrinhos?
– Quadrinhos? Sim… Por que não pensei nisso antes. Um Mundo criado em quadrinhos seria magnífico. As possibilidades seriam infinitas, a diversidade de temas, gêneros, estilos, combinações que não conseguiríamos em nenhuma outra linguagem. O único limite seria a nossa imaginação. Você desenha?
– Bem, eu rabisco um pouco.
– Então está feito. Eu fico encarregado do roteiro e você do desenho.
– Mas…
– Já estou até prevendo! Esse novo Mundo em quadrinhos será um sucesso. Iremos ganhar vários prêmios. E depois podemos até mesmo fazer uma reedição de luxo em capa dura. E dessa vez nem vou precisar descansar no sétimo dia.

O Cantar do Aedo

– E então, amigo Homero, como foi na entrevista?
– Não fui bem, Hesíodo. Minha obra foi rejeitada.
– Mas por quê?
– O editor disse que meus Olimpianos são cópia de uma tal de Liga da Justiça.
– Cópia?
– Isso mesmo.
– Interessante…
– Hã?
– Não percebe, Homero. Isso quer dizer que os nossos Deuses continuam existindo no imaginário do Homem desse tempo. Ainda que com outros nomes.
– Sim, Hesíodo, de fato. Mas eles acreditam que foram eles que criaram. Não percebem que foram inspirados por nossas Musas.
– Não importa. Mesmo que eles acreditem que realmente possam criar algo do nada, e não percebam que utilizam os mesmos arquétipos que nós usávamos, mais cedo ou mais tarde esses aedos… Como é mesmo o nome que eles se dão hoje em dia?
– Quadrinistas!
– Isso. Esses quadrinistas perceberão que a única originalidade que podem conceber está na particularidade de seus cantares.
– Não, Hesíodo. Eles não cantam mais. Agora eles desenham as histórias.
– Que seja! O princípio é o mesmo!
– Você está certo. Então vamos fazer um brinde aos aedos, aos antigos e aos modernos, que eternizam os deuses e heróis com suas histórias.
– E também as nossas musas, pois sem suas inspirações não seríamos nada.
– Aos aedos e as musas!