Como Fazer uma História em Quadrinhos e Entrar no Mercado de HQs

Apesar de não ser nenhum expert em quadrinhos, esse ano vai fazer dez anos que estou trabalhando com HQs, e por isso costumo receber muitas perguntas e dúvidas da galera que está começando agora ou quer começar. E essas perguntas podem ser resumidas em basicamente duas: Como se faz uma história em quadrinhos? E como se faz pra entrar no mercado de quadrinhos?

Bem, eu vou deixar que dois mestres dos quadrinhos respondam essas perguntas por mim, usando para isso os próprios quadrinhos.

O primeiro deles é o Laerte, em uma página de quadrinhos que ele fez para a edição nº 9 da revista Piratas do Tietê publicada em maio de 1991.

Laerte - Como Fazer um Fanzine

E o nosso segundo mestre é o Scott McCloud. Vamos ver o que ele diz nesta página retirada de seu livro Reiventando os Quadrinhos publicado originalmente em 2000.

Como fazer uma Revista em Quadrinhos

Pois bem, como o Laerte e o McCloud deixam claro em suas HQs, começar a publicar e vender sua própria revista em quadrinhos é algo bem simples, não requer prática, muito menos experiência, e nem necessita da presença de um adulto por perto. =)

E hoje fazer e publicar quadrinhos é ainda mais fácil, e não requer nenhum gasto com impressões ou xerocs. Você só precisa montar um blog/site e começar a publicar seus quadrinhos na Internet como eu faço. E então basta você conquistar os seus mil fãs verdadeiros que irão bancar a sua produção.

É claro que essa sustentabilidade da sua produção de quadrinhos não virá da noite para o dia. É preciso de alguns anos publicando constantemente, e ganhando quase nada, para que isso aconteça. Por isso, para viver fazendo quadrinhos é preciso de muita força de vontade, autodisciplina e perseverança. Não é algo fácil, mas, afinal de contas, o que nessa vida é? =D

A Internet e os Quadrinhos Independentes

“As editoras sempre contam a triste história do monopólio da distribuição. Acham que são donas do mundo por dominarem esta distribuição. Pagam mal ao autor, são atravessadores mesmo. Com a Internet, isto acabou. Se você tem capacidade de se organizar e se o seu trabalho é bom de verdade, vai dar para você viver dele de maneira independente e digna. Eu vendo centenas de livros e camisas todo mês sozinho. Centenas mesmo. A diferença? Eu ganho 65% do custo dos produtos, e não 4%, que é o que ganha um quadrinhista que assina contratos com esta gente. Não tem muito mistério: um site com boleto e cartão, uma tiragem pequena e correios…”

Essa citação que fiz aí em cima é do André Dahmer, criador dos Malvados, de uma entrevista que ele deu para o site Bigorna no fim do ano passado. Neste trecho que citei, Dhamer defende sua opção por publicar seus quadrinhos de forma independente e o quanto isso é vantajoso. Tanto é que cada vez mais quadrinistas vem optando pela publicação independente. E por que isso?

O próprio Dhamer já dá a resposta; por causa da Internet. Um dos maiores obstáculos que um quadrinistas independente enfrenta é a venda e distribuição de seus quadrinhos. E quando falamos de um país continental como o Brasil, o problema se agrava ainda mais. Mas a Internet praticamente elimina este obstáculo. Principalmente porque permite ao quadrinista independente por em prática a teoria da Cauda Longa, como bem explica o Leonardo Santana em uma de suas coluna no Bigorna. Ou seja, venda pela Internet de revistas de baixa tiragem para um público de nicho a um custo muito baixo.

Que a Internet facilita a vida do quadrinista independente em tirar uns trocados com seus quadrinhos, não há dúvidas. Mas até agora estamos falando da utilização da Internet pra vender quadrinhos impressos. Será que é possível ganhar dinheiro também com quadrinhos no formato digital (ou webcomics como alguns preferem chamar)?

Esta bola das webcomics já havia sido levantada pelo Pablo Casado no fim do ano passado e voltou a ser levantada recentemente pelo Marcio Massula. Ambos estão na mesma frequência de pensamento que eu, ou seja, considerando os webcomics como, mais do que o futuro, o presente dos quadrinhos. Não estou dizendo com isso que os quadrinhos impressos deixarão de existir, longe disso. A questão é que cada vez mais o formato digital está se tornando um modo viável financeiramente de se produzir hqs.

Uma notícia publicada pelo Pablo no Universo HQ no começo deste ano fala sobre a queda das vendas de quadrinhos no mercado japonês, ao mesmo tempo em que a distribuição dos mangás em formato digital vem crescendo, principalmente pela facilidade que os japoneses tem em baixar esses mangás em seus celulares para lê-los nos aparelhinhos. Quer dizer, se o Japão, que é um dos maiores mercados de quadrinhos do mundo, está apontando para essa direção dos quadrinhos digitais, o que dirá de outros mercados bem menores.

O Japão, é claro, possui essa vantagem da tecnologia em relação aos outros países. Acredito que o custo de um celular lá deva ser relativamente barato e qualquer japinha pode ter um, o que facilita a propagação das webcomics. Aqui no Brasil, por exemplo, as pessoas têm que ler as webcomics sentadas em frente do monitor de seus computadores, o que é um tanto desconfortável. Eu mesmo, apesar de publicar minhas HQs na Internet, acho incrivelmente chato ler uma HQ no monitor do micro, principalmente se for muito longa. Por isso, em geral, leio apenas tiras pela Internet.

Mas o que tenho percebido, principalmente pelos meus alunos de quinta a oitava série, é que essa “geração digital”, que já nasceu num mundo onde a Internet comercial já existia, estão muito mais habituados a ler quadrinhos no computador, sejam scans ou webcomics, do que aqueles que pertencem a gerações mais velhas, ainda muito apegados ao mundo analógico. E é nessa geração digital que os quadrinistas independentes devem prestar atenção, pois dela virá os seus futuros leitores.

Pois bem, a essa hora você já deve estar se perguntando, se é possível ganhar dinheiro com webcomics, como então fazer isso? Existem dois modelos principais pra se comercializar quadrinhos digitais. O primeiro é disponibilizando as hqs num formato como o pdf ou o cbr, e cobrar pelo download delas. Eu, no entanto, acredito que este modelo de cobrar pelo download não daria muito certo aqui no Brasil, o que nos leva ao segundo modelo, que é o de disponibilizar as hqs de graça e faturar a grana através de merchandising, ou seja, vendendo produtos que levem a marca de suas hqs e personagens.

Este é o modelo que foi adotado por várias webcomics de sucesso lá fora como PvPonline, Ctrl+Alt+Del, Penny-Arcade, Real Life, MegaTokyo, entre outras. Percebam que todas essas webcomics que citei possuem uma lojinha virtual em seus sites onde os autores vendem camisetas, bonés, canecas, broches, e o que mais eles conseguirem botar a imagem de seus personagens, além de álbuns com compilações de suas tiras e hqs. Aqui no Brasil, como o principal representante deste modelo temos o já citado André Dhamer e seus Malvados.

E é este o modelo que pretendo adotar para o Homem-Grilo. Em breve irei disponibilizar camisetas do Homem-Grilo pra vender no site do personagem, e conforme for, outros produtos que levem a imagem dele e dos outros super-heróis do universo HG. Por enquanto, a forma como estou tirando uns trocados com o personagem na Internet é através das propagandas do Google Adsense presentes no site. Mas sobre isso, irei falar mais detalhadamente num post futuro, pois este aqui já tá bem grandinho. Então, por hoje é só pe-pe-pessoal! =)