O Ciclo Cosmogônico em Quadrinhos

Cosmogonias - Capa

Não gosto de fazer postagens de explicação dos meus próprios quadrinhos, pois acho que isso é como explicar uma piada, mas vou abrir uma exceção para falar sobre como a forma, o conteúdo e a temática de Cosmogonias se relacionam.

Até porque Cosmogonias foi publicada em 2016, então quem tinha que ler já leu, e os leitores, como constatei pelas resenhas e contatos direto, já avançaram em todas as camadas, elementos e referências que coloquei nas histórias. Com exceção de um. Bem, até agora.

Não que fosse algo muito complexo, ou muito “cabeça” de entender, mas é que para perceber esse elemento de Cosmogonias precisa de uma atenção a detalhes que talvez não se perceba numa primeira leitura. E a intenção é que de fato se fizesse mais de uma leitura para poder entender.

Pois bem. Ontem um leitor me enviou um e-mail dizendo que adorou a forma como eu construí a própria revista como se fosse um ciclo cosmogônico infinito, que começa na capa, atravessa todo o miolo, terminando de novo na capa, que por ser dupla, reiniciasse assim o ciclo.

Como disse, isso não é algo complexo de se perceber, mas requer atenção. E esse leitor foi o primeiro, até onde sei, a perceber isso. Perguntei então como ele chegou a essa interpretação.

E ele me disse que foi quando sacou que a primeira HQ (que chama justamente Cosmogonia) ao mesmo tempo abre e fecha a revista, funcionando como um requadro literário pras outras histórias e dando união a tudo.

Ele inclusive percebeu algo que não foi minha intenção, que a ideia da própria revista como um ciclo cosmogônico infinito funciona também se as HQs forem lidas de forma inversa.

Eu tendo a escrever minhas histórias sempre imaginando o leitor ideal que vai conseguir avançar em todas as camadas, elementos e referências, mas obviamente, sem deixar de lado o leitor que apenas ficou na primeira camada. A HQ tem que se interessante para ambos.

Mas é bem recompensador quando você percebe que possui leitores que realmente se esforçam para avançar nas camadas de interpretação de sua obra, e todo o esforço que você teve construindo essa experiência narrativa não foi em vão.

Primeiro Estásimo de uma Cosmogonia Quântica Hesiódica Platônica Ovidiana

No princípio era o Kaos. Massa de informação discorde e disforme. Pacotes de bits fragmentados.

E o Nous do divino Progamador-Aedo vagava pela face do ruidoso abismo, e ao contínuo Kaos decidiu por termo.

Ele convergiu os dados kaóticos em um ponto subatômico. Era a partícula Kernel-Mnemosyne, no qual a divindade instalou seu primeiro programa, Moros.

Em Moros estava o código-fonte do sistema. A linguagem da criação. A narrativa do cosmos vinda da Alta Natureza. Pois o verbo era o Programador-Aedo.

E as cordas quânticas da partícula Kernel começaram a vibrar, criando frequências musicais que foram acompanhadas pelo canto cósmico das Musas.

Dentre as Musas, funções-programa numinosas, estava Calíope, a belíssima voz que brilha no negror da eterna noite, carregando em si a configuração do sistema multiuniversal, formatando o não-ser em ser.

Então ocorreu o Big Reboot e o universo começou a se expandir.

O espaço livre do universo expandido o Programador-Aedo em partições primárias separou.

A primeira partição chamou de Gaia. A segunda, extraída da primeira, chamou de Uranus. E viu que era bom.

No seio de Gaia uma terceira partição foi criada. Era o Tártaro nevoento para onde os programas corrompidos seriam enviados.

Para gerir o novo cosmos, a divindade criadora instalou programas autônomos a que chamou de Titãs. Mas possuíam os Titãs um curvo pensar e foram eles tomados pelo vírus da hybris.

Pela Alta Natureza Criadora foram no cosmos novos programas instalados. Eram os Olimpianos Sempre Eternos, que pelo programa Z comandados, aprisionaram os Titãs infectados no Tártaro e o controle do sistema assumiram .

Com a ordem enfim estabelecida, o sistema palco-universo estava pronto para receber seus programas-atores. E o Programador-Aedo criou o Homem a sua imagem e semelhança.

O Homem carregava em si o código-fonte de Moros. Um roteiro escrito em seu DNA com o mythos a ser protagonizado. Mas era um script aberto, e nessa narrativa logo o Homem estaria improvisando.

Mas se sua peça seria uma tragédia ou uma comédia o Programador-Aedo não sabia. Por uma tragicomédia decidiu então .

E finalizado estava o palco-universo. Configurados e em suas posições estavam os programas-atores. Então o sistema-cósmico foi ligado. E a narrativa da vida (e da morte) começou.

O Escritor de Mil Faces

Faz um bom tempo que não atualizo este blog mas é por um bom motivo. Acontece que estou escrevendo histórias em quadrinhos como nunca, e muito em breve vocês já poderão conferir alguns desses trabalhos concluídos.

O primeiro deles é Quadrinistas – Canto II a ser publicada na Garagem Hermética 5, que se tudo sair dentro do plano, será publicada no mês que vem junto com a Café Espacial 4. Para quem ainda não leu, o Canto I de Quadrinistas está disponível online no blog do Quarto Mundo.

E para quem ainda não está sabendo, estou escrevendo o roteiro de uma adaptação da Odisséia em quadrinhos, que será desenhada pelo Laudo. Alguns dos primeiros esboços dos personagens já podem ser conferidos.

E em breve, aguardem mais novidades sobre minhas outras histórias em quadrinhos, como o Homem-Grilo e Nova Hélade.

O Cantar do Aedo

– E então, amigo Homero, como foi na entrevista?
– Não fui bem, Hesíodo. Minha obra foi rejeitada.
– Mas por quê?
– O editor disse que meus Olimpianos são cópia de uma tal de Liga da Justiça.
– Cópia?
– Isso mesmo.
– Interessante…
– Hã?
– Não percebe, Homero. Isso quer dizer que os nossos Deuses continuam existindo no imaginário do Homem desse tempo. Ainda que com outros nomes.
– Sim, Hesíodo, de fato. Mas eles acreditam que foram eles que criaram. Não percebem que foram inspirados por nossas Musas.
– Não importa. Mesmo que eles acreditem que realmente possam criar algo do nada, e não percebam que utilizam os mesmos arquétipos que nós usávamos, mais cedo ou mais tarde esses aedos… Como é mesmo o nome que eles se dão hoje em dia?
– Quadrinistas!
– Isso. Esses quadrinistas perceberão que a única originalidade que podem conceber está na particularidade de seus cantares.
– Não, Hesíodo. Eles não cantam mais. Agora eles desenham as histórias.
– Que seja! O princípio é o mesmo!
– Você está certo. Então vamos fazer um brinde aos aedos, aos antigos e aos modernos, que eternizam os deuses e heróis com suas histórias.
– E também as nossas musas, pois sem suas inspirações não seríamos nada.
– Aos aedos e as musas!