Primeiro Estásimo de uma Cosmogonia Quântica Hesiódica Platônica Ovidiana

No princípio era o Kaos. Massa de informação discorde e disforme. Pacotes de bits fragmentados.

E o Nous do divino Progamador-Aedo vagava pela face do ruidoso abismo, e ao contínuo Kaos decidiu por termo.

Ele convergiu os dados kaóticos em um ponto subatômico. Era a partícula Kernel-Mnemosyne, no qual a divindade instalou seu primeiro programa, Moros.

Em Moros estava o código-fonte do sistema. A linguagem da criação. A narrativa do cosmos vinda da Alta Natureza. Pois o verbo era o Programador-Aedo.

E as cordas quânticas da partícula Kernel começaram a vibrar, criando frequências musicais que foram acompanhadas pelo canto cósmico das Musas.

Dentre as Musas, funções-programa numinosas, estava Calíope, a belíssima voz que brilha no negror da eterna noite, carregando em si a configuração do sistema multiuniversal, formatando o não-ser em ser.

Então ocorreu o Big Reboot e o universo começou a se expandir.

O espaço livre do universo expandido o Programador-Aedo em partições primárias separou.

A primeira partição chamou de Gaia. A segunda, extraída da primeira, chamou de Uranus. E viu que era bom.

No seio de Gaia uma terceira partição foi criada. Era o Tártaro nevoento para onde os programas corrompidos seriam enviados.

Para gerir o novo cosmos, a divindade criadora instalou programas autônomos a que chamou de Titãs. Mas possuíam os Titãs um curvo pensar e foram eles tomados pelo vírus da hybris.

Pela Alta Natureza Criadora foram no cosmos novos programas instalados. Eram os Olimpianos Sempre Eternos, que pelo programa Z comandados, aprisionaram os Titãs infectados no Tártaro e o controle do sistema assumiram .

Com a ordem enfim estabelecida, o sistema palco-universo estava pronto para receber seus programas-atores. E o Programador-Aedo criou o Homem a sua imagem e semelhança.

O Homem carregava em si o código-fonte de Moros. Um roteiro escrito em seu DNA com o mythos a ser protagonizado. Mas era um script aberto, e nessa narrativa logo o Homem estaria improvisando.

Mas se sua peça seria uma tragédia ou uma comédia o Programador-Aedo não sabia. Por uma tragicomédia decidiu então .

E finalizado estava o palco-universo. Configurados e em suas posições estavam os programas-atores. Então o sistema-cósmico foi ligado. E a narrativa da vida (e da morte) começou.

O Cantar do Aedo

– E então, amigo Homero, como foi na entrevista?
– Não fui bem, Hesíodo. Minha obra foi rejeitada.
– Mas por quê?
– O editor disse que meus Olimpianos são cópia de uma tal de Liga da Justiça.
– Cópia?
– Isso mesmo.
– Interessante…
– Hã?
– Não percebe, Homero. Isso quer dizer que os nossos Deuses continuam existindo no imaginário do Homem desse tempo. Ainda que com outros nomes.
– Sim, Hesíodo, de fato. Mas eles acreditam que foram eles que criaram. Não percebem que foram inspirados por nossas Musas.
– Não importa. Mesmo que eles acreditem que realmente possam criar algo do nada, e não percebam que utilizam os mesmos arquétipos que nós usávamos, mais cedo ou mais tarde esses aedos… Como é mesmo o nome que eles se dão hoje em dia?
– Quadrinistas!
– Isso. Esses quadrinistas perceberão que a única originalidade que podem conceber está na particularidade de seus cantares.
– Não, Hesíodo. Eles não cantam mais. Agora eles desenham as histórias.
– Que seja! O princípio é o mesmo!
– Você está certo. Então vamos fazer um brinde aos aedos, aos antigos e aos modernos, que eternizam os deuses e heróis com suas histórias.
– E também as nossas musas, pois sem suas inspirações não seríamos nada.
– Aos aedos e as musas!