Era da Informação?

Em um dos últimos posts de seu blog, Inagaki comenta sobre a prova de redação da Fuvest realizada no domingo passado, em especial, sobre um dos textos apresentados na prova, de autoria de . Em seu texto, Kanitz fala sobre o que ele chama de “Era da Desinformação”, que segundo ele, é um fenômeno causado pela Internet em que qualquer um pode expressar sua opinião, e por isso, acaba gerando muito “lixo” e “ruído sem significado”.

Inagaki rebate a afirmação de Kanitz dizendo que isso não é uma exclusividade da Internet. De fato, sempre se produziu muito “lixo” durante toda a história da humanidade, e como Historiador, sei disso muito bem. A Internet apenas tornou esse “lixo” mais evidente, mostrando para as pessoas comuns que não é só porque algo está escrito que deve se tratar de uma verdade absoluta, pois como afirma Paul Veyne, a verdade nem mesmo existe.

Essa noção de que “se está escrito, então é porque deve ser verdade” perdurou por muito tempo na História pois justamente a escrita sempre esteve nas mão de poucos privilegiados, chegando ao ponto de criar toda uma classe de prestígio e de poder em cima da prática da escrita, como era o caso dos escribas no antigo Egito, dos monges bibliotecários na idade medieval, ou dos Intelectuais Acadêmicos nos dias de hoje. E a Internet vem justamente para quebrar essa hierarquia de poder sobre o conhecimento.

A principal crítica de Kanitz, e que é muito semelhante a crítica que faz em seu livro A Cultura do Amador, é que a Internet nivela o conhecimento por baixo, já que qualquer um pode emitir a sua opinião, e não apenas os especialista como acontece nas mídias tradicionais. A idéia que eles concebem é que a opinião de um “amador” não tem o mesmo rigor científico da opinião de um especialista. Mas essa afirmação não passa de um engôdo.

É claro que daremos muito mais credibilidade a um físico quando estiver falando sobre física e a um historiador quando estiver falando sobre História, mas nada impede que um físico possua tanto conhecimento de História quanto um historiador, e um historiador saiba tanto sobre física quanto o físico. Da mesma forma, na impede que alguém que nunca passou pela academia possa ter plenos domínios sobre o conhecimento acadêmico.

Um amador pode dominar tão bem um assunto quanto a pessoa que se formou em um campo de conhecimento específico. Afinal de contas, a mídia tradicional não é feita basicamente por jornalistas, que salvo exceções, não deixam de ser “não-especialistas”? Aliás, nisso vemos até uma contradição nos argumentos tanto de Kanitz quanto de Keen, pois na Internet, principalmente em blogs, costumamos ver muito mais especialistas escrevendo sobre seus assuntos de especialidades do que nas mídias tradicionais, ou seja, economistas falando sobre economia, historiadores falando sobre história, programadores falando sobre programação, e por aí vai. E como eu já afirmei, nada impede que essas pessoas também manjem sobre conhecimentos além de suas áreas de especialidades.

A questão toda é que, como ressalta o próprio Inagaki em seu post, o leitor tem que aprender a criar um senso crítico e um “desconfiômetro” apurado, e isso tanto para o que encontra escrito na Internet quanto nas mídias tradicionais. A vantagem da Internet é que ela dá a esse leitor crítico uma gama muito mais ampla de fontes para apurar a informação do que ele teria em séculos anteriores, quando a informação estava restrita àquelas classes de prestígio que citei no começo do texto.

É por isso que, como historiador e professor de História, apóio indiscrimidamente os meus alunos a fazerem as pesquisas para os seus trabalhos utilizando (mas não só) a Internet. Procuro ensinar a eles por exemplo a como utilizarem a Wikipedia, não apenas como fonte de consulta, mas também incentivando eles a colaborarem com ela. Quantos professores vocês conhecem que fazem isso? Inclusive, já quebrei o pau diversas vezes com colegas professores que me recriminam por essa minha atitude, utilizando a mesma argumentação que Kanitz e Keen, de que a Wikipedia não é um fonte segura pois qualquer um pode escrever nela.

De fato, a Wikipedia é uma fonte insegura, mas ela é tão insegura quanto qualquer outra fonte se o leitor não possuir um senso crítico apurado, e é justamente isso que eu espero que as pessoas comecem a perceber, e acredito que a Internet pode colaborar para essa percepção. Diferente do que Kanitz afirma, não vivemos na “Era da Desinformação”, vivemos sim na que o sociólogos denominaram de “Era da Informação”. Mas o que é preciso perceber, mais do que tudo, que informação não é sinônimo de conhecimento. E o conhecimento também não vem ao se restringir a produção de conteúdo a poucos “especialistas”, mas sim conscientizando cada vez mais os leitores a utilizarem a sua capacidade de analise e interpretação desse conteúdo, independente de qual for a sua origem. Só assim é que conseguiremos finalmente migrar da “Era da Informação” para a “Era do Conhecimento”.

A Verdade Não Existe

“Mas como assim não existe?”, você deve estar se perguntando. Calma, eu explico. Ou melhor, Paul Veyne explica. Segundo ele, a verdade não existe, pois ela não é absoluta, e sim, constituída historicamente através dos séculos. “Os homens não encontram a verdade, fazem-na, como fazem sua história”. Alias, Veyne procura não utilizar a palavra verdade no singular, pois diz que ela “é uma palavra homônima, e não deveria ser empregada senão no plural”. O que existe então são “verdades”, ou segundo um conceito que Veyne utiliza, “programas de verdade”.

Toda essa teoria é utilizada por Paul Veyne para analisar as “modalidades de crenças” entre os gregos antigos em seu livro Acreditavam os Gregos em seus Mitos?. Uma pessoa com o mínimo de conhecimento histórico, certamente responderia a pergunta-título do livro com um eloqüente “sim”. Mas, não é tão simples assim. O que podemos dizer é que eles acreditavam e ao mesmo tempo não acreditavam em seus mitos. “Mas… Hein?”

“(…) um grego colocava os deuses no céu, mas teria ficado atônito se os percebesse no céu”. Essa fala de Veyne ilustra muito bem essa aparente contradição. Mas como pode alguém acreditar e ao mesmo tempo não acreditar em uma coisa? Uma pessoa que não acredita em fantasmas pode ter medo deles? Sim, isso é possível pois só existe programas de verdade heterogêneos, sendo que todas as verdades são analógicas, e apesar de estarmos sempre mudando entre elas, continuamos sempre no verdadeiro.

Vamos tentar entender isso. Ao assistir um filme ou ler um romance, você tem consciência de que se trata de uma ficção. Isso, no entanto, não o impede de acreditar no conteúdo da história, ao menos enquanto está assistindo a um filme ou lendo um livro. Você sabe, por exemplo, que o som não se propaga no espaço, mas aceita isso perfeitamente quando está assistindo a um filme como . Acontece que nesse momento você mudou, inconscientemente, de um programa de verdade anterior, em que o som não se propaga no espaço, para o programa de verdade do filme, em que a propagação do som no espaço é plenamente possível. É por isso também que você aceita que num filme típico do ou do , que eles façam diversas peripécias acrobáticas sobre-humanas. Ou não. Você certamente já foi no cinema e viu alguém ficar o tempo todo questionando o filme: “Puta, que mentira! Como é que aquele cara conseguiu fazer aquilo?”. Acontece que essa pessoa continuou mantendo o seu programa de verdade anterior ao invés de mudar para o programa de verdade do filme, então as verdades da história se tornaram falsas pra ele.

Quando pensamos nos mais diferentes campos do conhecimento, o processo de modulação entre programas de verdades é muito semelhantes aos exemplos acima. “Existe uma pluralidade de programas de verdade através dos séculos, que comportam diferentes distribuições do saber, e são estes programas que explicam os graus subjetivos de intensidade das crenças, a má-fé, as contradições num mesmo indivíduo”, diz Paul Veyne. Essa distribuição do saber está intimamente relacionada com a modalidade de crença de uma sociedade, ou de um grupo de pessoas.

Existem duas modalidades básicas de crenças. A primeira diz respeito à crença na palavra. Ou seja, é o conhecimento pela informação, pois essa está imbuída ela própria de autoridade do conteúdo que carrega. Essa é a modalidade de crença utilizada pelas religiões. A segunda, que é a modalidade de crença mais difundida, é a crença no outro, ou baseada na fé do outro. “Acredito na existência de Tóquio, onde ainda não fui, porque não vejo qual seria o interesse dos geógrafos e das agências em me enganar”, afirma Pual Veyne. Percebam que a maior parte do nosso conhecimento (arriscaria dizer, uns 99%) não foi adquirida empiricamente, mas sim através do que lemos num livro, revista ou jornal; assistimos na TV; ouvimos no rádio ou de uma outra pessoa. Eu, como Veyne, também não duvido da existência do Japão. Também não duvido que os norte-americanos realmente foram a Lua e fincaram sua bandeira lá, apesar de nunca ter ido conferir isso pessoalmente. Simplesmente porque não vejo qual seria a razão de mentirem sobre esse fato (mas ao contrário de mim, há muitos que vêem sim uma razão).

As modalidades de crenças nos remetem as modalidades de posse da verdade. Não se duvida do que os outros dizem ou acreditam se eles são respeitáveis. As relações entre as verdades são relações de força. Nada impede, por exemplo, que um médico saiba mais de História do que um historiador, mas esse último terá muito mais credibilidade do que o médico quando estiver falando sobre esse assunto. Assim como daremos mais credibilidade ao médico do que ao historiador se eles falarem sobre medicina. Criamos assim uma rede de confiança e autoridade com relação ao conhecimento. Percebam então como nosso conhecimento, em essência, não passa de um castelo de areia que pode desmoronar facilmente a qualquer momento se essa rede for quebrada. A consciência disso é algo aterrorizador e poderia enlouquecer o mais são dos homens.

No entanto, não quero dizer com isso que o conhecimento adquirido através da fé no outro seja menos confiável do que o conhecimento empírico. Apesar do que costumam apregoar algumas pessoas, principalmente entre jornalistas e advogados, através de máximas como “os fatos falam por si só” ou “os fatos não mentem”, devemos lembrar que não há a verdade absoluta das coisas, e a verdade não nos é imanente. Novamente, somos nós que fabricamos nossas verdades e não é “a realidade” o que nos faz acreditar nelas. Fatos são interpretados segundo o programa de verdade em vigor. Ainda que esses fatos possuam uma materialidade em algum lugar do espaço e do tempo, eles ainda estão sujeitos a uma interpretação. A materialidade de uma coisa não nos traz automaticamente o conhecimento sobre essa coisa. É como a velha anedota da árvore que cai no meio de uma floresta, se ninguém nunca a viu cair, é como se ela não tivesse caído. Ou nem ao menos existido.

Você neste exato momento provavelmente deve estar começando a por em dúvida a sua própria existência e a existência do mundo ao seu redor. Calma, também não estou querendo dizer que vivemos numa . Não sejamos tão platônicos. Mas é preciso ter consciência de que “o homem é um animal amarrado as teias de significados que ele mesmo teceu”, como diria . E o homem constrói o seu mundo com essas teias.

A consciência de que é verdade que a verdade varia é uma quebra de paradigma muito grande para a maioria das pessoas. Por isso temos uma tendência a sempre achar que o nossos programas de verdade sejam mais verdadeiros do que os dos outros. Isso quando não vemos a nossa como sendo a única verdade. Como diz Paul Veyne; “Quando não se vê o que não se vê, não se vê nem mesmo que não se vê”. Algumas pessoas estão tão acomodadas ou satisfeitas com as suas verdades que não percebem nada além disso. Desconhecem a forma irregular dos limites do mundo que construiu e então acreditam habitar dentro das fronteiras naturais. Elas enxergam apenas na perspectiva de um ponto, e não possuem consciência de que esse ponto é apenas um entre infinitos que formam uma reta, e que essa reta é apenas mais uma entre infinitas que constituem um plano, e que esse plano é apenas um lado de um polígono de infinitos lados. Se continuarmos nessa linha de raciocínio, logo nos veremos aprisionados na caverna de , olhando para sombras projetadas na parede. É, apesar de eu ter dito para não sermos tão platônicos, é difícil escapar da .

Acreditamos que aderimos ao verdadeiro para justificar nossas opções, sejam elas políticas, religiosas, morais, etc. Se desistimos delas, então declaramos que são falsas, pois se fossem verdadeiras, não teríamos desistido. Essa superstição ajuda as pessoas a viverem, pois decididamente seria um choque muito grande se elas se dessem conta de que suas escolhas (e suas verdades) são tão arbitrárias quanto, por exemplo, os seus gostos pessoais. Não sei explicar porque gosto de rock e não gosto de pagode. Poderia, no entanto, justificar meu gosto utilizando uma série de critérios para dizer que o rock é melhor que o pagode. Assim como alguém que gosta de pagode e não gosta de rock faria o mesmo com relação a seu gosto musical. Eu poderia dizer a essa pessoa que ela está enganada, mas de que adiantaria isso? Ambos acreditam ter razão e que seus programas são verdadeiros. Transportando esse exemplo para outras esferas, como a política, a social, a cultural, etc, percebemos que a verdade então só aparece quando se leva em conta o outro.

Essa percepção, no entanto, é uma ilusão. E essa atitude, principalmente para profissionais como jornalistas e historiadores, é extremamente perigosa. Se minha visão de mundo fosse “a verdadeira”, todas as outras automaticamente se tornariam falsas. E que razão há em se pesquisar e analisar algo que se tem certeza que é falso? Para não cair nessa armadilha, é preciso afirma que a minha visão de mundo sem ser falsa, também não é com maior razão, verdadeira. Só assim o historiador consegue recuar de forma a conseguir uma análise o mais neutra possível sobre seu objeto de estudo, pois sabemos também que “a neutralidade” é tão irreal quanto “a verdade”. Por isso estaria sendo hipócrita, ou no mínimo demagogo, se em algum momento dissesse que o programa de verdade contido neste texto fosse mais verdadeiro do que qualquer outro.

Viver em um mundo onde o verdadeiro e o falso não existem pode parecer a princípio algo entranho e até mesmo amedrontador. Mas, vai por mim, logo você se acostuma.