A Vida, o Universo e Tudo Mais

“(…) o sentido disso tudo é que não há sentido em tentar enlouquecer para impedir-se de ficar louco. Você pode muito bem dar-se por vencido e guardar sua sanidade para mais tarde.”
– Ford Prefect

Aproveitando a estréia do filme de O Guia do Mochileiro das Galáxias, a Sextante publicou o terceiro livro da série, A Vida, O Universo e Tudo Mais. E para você que ainda não conhece essa genial série de Douglas Adams, e provavelmente deve estar pensando que este é mais um livro de auto-ajuda da editora, vamos há um breve (e breve mesmo) resumo da história dos dois primeiros livros.

Em uma certa manhã ensolarada, Arthur Dent descobre que sua casa vai ser demolida, e mais do que isso, que seu planeta vai ser demolido. Com a ajuda de seu amigo alienígena, Ford Prefect, ele escapa da destruição iminente da Terra e começa a vagar pelo espaço em uma sucessão de eventos que o leva a descobrir a resposta fundamental sobre a vida, o universo e tudo mais, e que a Terra na verdade era um gigantesco computador construído a pedidos de um punhado de camundongos para tentar descobrir a pergunta para resposta fundamental (que se você ainda não sabe, é 42). Nesse ínterim, Arthur foi detonado, desintegrado, insultado, privado de chá, insultado mais algumas vezes, e por fim, acabou perdendo-se no tempo e foi parar na Terra pré-histórica onde passou a viver em uma caverna, e permaneceu por lá por cinco anos.

E é aí que começa a trama deste terceiro livro. Arthur, apesar do trauma que sofria a cada manhã ao se lembrar de onde estava, até que estava gostando da vida a qual estava levando, afinal, já havia um bom tempo que não era detonado e/ou insultado. Eis então que Ford aparece e através do seu Sensormático Subeta descobre uma fissura no contínuo espaço-tempo que leva a ele e a Arthur para a Londres atual, no meio de um campo de cricket durante a partida final do campeonato mundial, só para descobrirem que voltaram dois dias antes da já mencionada destruição da Terra.

Imaginando que as coisas não poderiam ficar pior, Arthut presencia uma espaçonave branca metálica se materializando, do nada, no meio do campo. De dentro dela saem robôs brancos, parecendo jogadores de cricket, que começam a matar todos ao redor e por fim, roubam a taça do jogo. Em meio àquela confusão gerada pela carnificina dos robôs, Arthur e Ford se reencontram com Slartibartfast que lhes explica quem são aquelas criaturas.

Eles são robôs construídos pelos habitantes do planeta Krikkit, que estão tentando juntar os cinco pedaços da chave que abre o envoltório de tempo na qual os seus mestres foram trancafiados. Acontece que anos antes, uma sangrenta guerra havia começado porque os habitantes pacatos do planeta Krikkit descobriram que não estavam sozinhos no universo como acreditavam. A revelação causou tamanho choque neles que começaram a aniquilar tudo que não fosse de Krikkit, ou seja, todo o resto do Universo, e por isso foram julgados e presos. Sabendo disso, Arthur e Ford passam a ajudar (há muito contra-gosto) Slartibartfast em sua missão de impedir que os robôs libertem seus mestres, o que certamente acarretará na destruição de todo o Universo.

A trama básica desse terceiro volume era originalmente um roteiro que Adams havia escrito para a série de tv britânica Dr. Who, mas que nunca chegou a ser usado, e que então foi adaptado para a série do Mochileiro das Galáxias. Essa história não possui um ritmo e uma narrativa tão frenética quanto a dos livros anteriores, mas mantém o humor nonsense, irônico e corrosivo de Adams, recheado de críticas, sendo nesse livro principalmente ao xenofobismo e ao preconceito étnico. Há ainda diversas sacadas hilárias, como Wowbagger, o Infinitamente Prolongado, o Propulsor Bistromático da nave de Slartibartfast, a Campanha pelo Tempo Real, o Ultracríquete Broquiano e suas regras maciçamente complicadas, e isso sem contar os já famosos comentários ácidos de Marvin, o robô maníaco-depressivo.

Por fim, o que podemos perceber por toda a série do Mochileiro das Galáxias, e em especial, por este terceiro livro, é que a vida (e o universo e tudo mais) não tem nenhum sentido por si própria, há não o ser o que as pessoas tentam lhe dar, seja através da religião, da filosofia, da ciência, etc. Mais precisamente, o que Adams está dizendo com sua obra é que o universo na verdade não passa de uma grande piada. Uma piada nonsense, aliás. E também, de um certo humor negro. Mas certamente, uma piada muito engraçada. Isso é claro, se você é uma pessoa que sabe rir de si mesmo. E Douglas Adams certamente sabia fazer isso como ninguém.

Dados Técnicos

A Vida, o Universo e Tudo Mais.
Autor: Douglas Adams.
Editora: Sextante.
ISBN: 9788599296592.
Ano: 2009.
Edição: 1.
Número de páginas: 224.
Acabamento: Brochura.
Formato: Médio.
 

O Restaurante no Fim do Universo

“Existe uma teoria que diz que, se um dia alguém descobrir exatamente para que serve o Universo e por que ele está aqui, ele desaparecerá instantaneamente e será substituído por algo ainda mais estranho e inexplicável.
Existe uma segunda teoria que diz que isso já aconteceu.”

É com esse capítulo de introdução que Douglas Adams lhe prepara para as diversas pirações de sua verve tresloucada que se seguirão pelo outros capítulos do livro. O Restarurante no Fim do Universo consegue ter um ritmo mais alucinante e vertiginoso que o primeiro volume da série, O Guia do Mochileiro das Galáxias. Num momento lá estão Arthur, Ford, Zhapod, Trilian e o andróide Marvin abordo da nave Coração de Ouro sendo bombardeados por uma dúzia de Canhões Fotrazônicos Megadeath de 30 Destructions de uma nave Vogon, em outro estão calmamente sentados em uma mesa de restaurante tomando seus drinks de Dinamite Pangaláctica enquanto assistem a explosão final do universo, e no momento seguinte encontramos nossos heróis sendo a “atração principal” de um show do Disaster Area, a banda mais barulhenta de toda a Galáxia.

No primeiro livro, Arthur Dent tomou conhecimento de algumas coisas não muito boas, e de outras piores ainda. Entre as não muito boas está o fato dos humanos serem a terceira raça mais inteligente da Terra, depois dos golfinhos e dos ratos. E entre a piores ainda, o fato de que a Terra é na verdade um gigantesco computador criado pelos ratos (que nada mais são do que uma representação dimensional de uma raça de seres pandimensionais) para descobrir a pergunta para a resposta fundamental sobre a vida, o universo e tudo mais – só que infelizmente a Terra foi destruída um pouco antes disso ser descoberto. Agora cabe a Arthur, a única “parte” que sobrou do computador Terra, a missão de descobrir a pergunta referente à questão fundamental.

Enquanto isso Zhapod Beeblebrox parte em busca do homem que rege o universo, mesmo que ele não saiba o porquê de estar fazendo isso, Babel Fishjá que ele mesmo tratou de enterrar essa informação em uma seção obscura e inacessível de seus dois cérebros, pois se soubesse, certamente não estaria fazendo.

Nonsense é pouco para descrever este livro. Há passagens que são verdadeiros deleites de ironia e sarcasmo, onde Douglas Adams destila todo seu veneno contra a sociedade e suas instituições políticas. O capítulo 19 onde ele descreve um verbete do Guia do Mochileiro que mostra estatísticas relativas à natureza geossocial do Universo é um bom exemplo disso.

O trabalho gráfico feito pela Sextante não só deste livro, como também dos outros volumes estão muito bons, com um visual excelente. Dá até gosto de ver os livros enfilerados na estante.

Por fim, só me resta dizer a vocês para que aproveitem a visão do fim do universo aos goles de uma boa dose de Dinamite Pangaláctica.

Dados Técnicos

O Restaurante no Fim do Universo.
Autor: Douglas Adams.
Editora: Sextante.
ISBN: 9788599296585.
Ano: 2009.
Edição: 1.
Número de páginas: 240.
Acabamento: Brochura.
Formato: Médio.

O Guia do Mochileiro das Galáxias

“Muito além, nos confins inexplorados da região mais brega da Borda Ocidental desta Galáxia, há um pequeno sol amarelo e esquecido.”

É assim que começa a história de ficção científica mais engraçada e criativa já escrita entre Alfa Centauro e a Nebulosa de Andrômeda. Estou falando de O Guia do Mochileiro da Galáxias do genial Douglas Adams, que está sendo reeditado pela editora Sextante, fazendo a alegria daqueles que não tiveram a oportunidade de ler a primeira edição publicada pela editora Brasiliense (com o título apenas de O Mochileiro das Galáxias), pois ela já está esgotada há muito tempo e até mesmo no sebos é incrivelmente difícil de ser encontrada.

Nessa história iremos conhecer Arthur Dent, um típico cidadão britânico, que descobre em cima da hora que sua casa será destruída para a construção de um desvio. Achando que não poderia ficar pior, ele descobre também que seu amigo, Ford Prefect, é um alienígena que está na terra fazendo uma pesquisa para um guia de viagens interplanetário (o tal guia do título do livro) e que o planeta Terra será destruído. Acontece que o Conselho de Planejamento do Hiperespaço Galáctico está construindo uma via expressa hiperespacial e infelizmente a Terra está no meio do caminho.

Mas com a ajuda de Ford Prefect, Arthur consegue escapar da destruição do seu planeta e começa uma aventura espacial onde conhecerá seres bizarros e que o levará ao encontro da resposta fundamental sobre a vida, o universo e tudo o mais.

Douglas Adams criou O Guia do Mochileiro como uma série de rádio para a emissora BBC e posteriormente a transformou numa série de livros, cujos outros volumes são O Restaurante no Fim do Universo; A Vida, o Universo e Tudo Mais; Até Mais, e Obrigado pelos Peixes; e Praticamente Inofensiva (sendo o único que não havia sido publicado pela Brasiliense). Adams ainda escreveu um conto, O Jovem Zaphod Joga Seguro (Young Zaphod Plays It Safe), para a coletânea que reúne todos os livros, The Ultimate Hitchhiker’s Guide, e que foi publicado no Brasil na primeira edição da revista Sapiens da editora Abril.

O que torna essas histórias tão boas é um humor sagaz carregado de ironias e sarcasmos, com alguns toques de nonsense, aliado a uma forte crítica política e social. Boa parte desse peculiar humor de Adams foi influenciado pelo Monty Python (grupo de humor britânico conhecido por obras como A Vida de Brian e O Sentido da Vida), na época em que ele trabalhou com a trupe, como roteirista. Mas Adams não era um escritor lá muito responsável no que diz respeito a prazos, sempre deixando pra escrever seus livros na última hora. Dizem que, faltando um mês para terminar o prazo de entrega do segundo livro da série, ele ainda não tinha começado a escrever uma única linha. Ele mesmo declarou uma vez que só conseguia escrever quando estava sobre forte pressão.

O Guia do Mochileiro possui uma adaptação para TV britânica feita em 1982 e neste ano foi lançado uma versão para o cinema que tem os atores Martin Freeman e Mos Def interpretando, respectivamente, Arthur Dent e Ford Prefect, além de John Malkovich como Humma Kavula, um personagem criado por Adams especialmente para o filme. Infelizmente Douglas Adams não pôde conferir a sua obra na tela grande, pois faleceu em 11 de maio de 2001, vítima de um ataque cardíaco. Seus leitores certamente estão sentindo muito a sua falta.

Por fim, só tenho a dizer para você que corra rapidamente para a livraria mais próxima e garanta já o seu exemplar de O Guia do Mochileiro das Galáxia antes que essa edição também se esgote. E caso você pretenda se tornar um mochileiro e se aventurar pelos confins do espaço sideral, lembre-se do conselho básico do guia, pois aconteça o que acontecer, NÃO ENTRE EM PÂNICO.

Dados Técnicos

O Guia do Mochileiro das Galáxias.
Autor: Douglas Adams.
Editora: Sextante.
ISBN: 9788599296578.
Ano: 2009.
Edição: 2.
Número de páginas: 208.
Acabamento: Brochura.
Formato: Médio.