Parte da Revolução

Capa do livro A Revolução do Gibi de Paulo Ramos.

No dia 19 deste mês eu fui ao lançamento do novo livro do Paulo Ramos, A Revolução do Gibi – A Nova Cara dos Quadrinhos no Brasil, que aconteceu na Livraria HQMix (que saiu da Praça Roosevelt e agora está em novo endereço, ao lado da FAAP). Neste livro, Paulo Ramos faz uma compilação de alguns dos posts que ele publicou em seu Blog dos Quadrinhos.

A grande sacada do livro é a organização dos posts em capítulos temáticos (como super-heróis, mangás, adaptação literária, etc) e com o acréscimo de comentários posteriores que os contextualizam dentro do que estava acontecendo na época em que foram postados no blog. Deste modo, A Revolução do Gibi acaba se tornando um retrato bem completo do mercado de quadrinhos no Brasil na primeira década do século XXI.

E eu fico feliz de saber que sou um dos protagonistas desta “revolução”, tendo a minha ainda curta carreira de quadrinista registrada nesse livro, em especial no capítulo dedicado aos quadrinhos independentes. Lá é citado o meu trabalho com o Homem-Grilo, na revista Garagem Hermética, e como fundador do Quarto Mundo.

Aliás, o Paulo Ramos foi o primeiro jornalista a noticiar sobre o Quarto Mundo (antes mesmo da estreia oficial do coletivo), em uma reportagem para programa Metrópolis da TV Cultura. O Paulo, como bom jornalista, não fica esperando as notícias caírem no seu colo (ou fica apenas publicando release de editora). Ele vai atrás delas.

No período entre o fim de 2006 e começo de 2007, o Paulo estava quase sempre nos lançamentos independentes em São Paulo (a maioria acontecia lá na “Menor Livraria do Mundo” no “Jeremias, O Bar”, gerenciados pelo Gual e a Dani, e que depois viriam a abrir a Livraria HQMix). E por estar presente nos lançamentos, o Paulo acabou percebendo a “movimentação” que estava acontecendo entre os autores e grupos independentes e que iria culminar na fundação do Quarto Mundo.

Já vai fazer três anos que estou fora do Quarto Mundo (sai do coletivo em setembro de 2009). E por ter saído sem fazer estardalhaço, muita gente ainda pensa que faço parte do Quarto Mundo, e nem sabe que estou fora do coletivo há tanto tempo. Mas o período em que estive no Quarto Mundo foi de vital importância para a minha evolução como quadrinista. Aprendi muito, tanto com os acertos, e principalmente com o erros, os quais não pretendo voltar a cometer nos meus projetos seguintes.

Um deles, na verdade, já está em execução há um pouco mais de um ano, que é o Petisco. Assim como o Quarto Mundo, o Petisco também é um coletivo de quadrinistas, mas as semelhanças param por aí. Enquanto o foco do Quarto Mundo são os quadrinhos impressos, o foco do Petisco são os quadrinhos digitais (mas sem excluir também os impressos).

O Quarto Mundo é um coletivo aberto, em que qualquer um pode fazer parte e colaborar, mesmo se você ainda for um quadrinista iniciante, ou que ainda não tenha uma boa qualidade técnica (pois a ideia do Quarto Mundo é que, em contato com outros quadrinistas, trocando informações e vivenciando todas as funções da cadeia produtiva de um quadrinho, você possa evoluir e se aprimorar). o Petisco, por sua vez, é um coletivo fechado. Pretendemos abrir para novos integrantes em breve, mas ainda assim, não será algo aberto, e os candidatos ao Petisco terão que passar por uma avaliação técnica, artística e editorial.

Já meu outro projeto, e que ainda vai demorar mais um pouco pra virar realidade, será a minha editora. A ideia de criar uma editora, na verdade, será apenas para eu ter uma firma aberta pra conseguir viabilizar certas coisas que eu não consigo viabilizar como pessoa física, pois o processo de produção continuará no esquema independente, e sob a filosofia do “código aberto” e da cultura livre.

Bem, toda essa volta que dei foi na verdade pra dizer que, de minha parte, a “revolução” está apenas começando. Apesar de eu já publicar quadrinhos há 12 anos, ainda tenho uma longa estrada a trilhar, e muito ainda o que evoluir como quadrinista.

Mas estou otimista, e acredito que os próximos anos serão extremamente bons para o mercado de quadrinhos no Brasil, sobretudo para a produção nacional. E pretendo com certeza continuar sendo um dos personagem atuantes desta história.

E você?

Ps: O último episódio do excelente podcast Café com HQ contou com a minha participação, no qual eu falo sobre webcomics, direitos autorais, e diversos outros assuntos relacionados (ou não). Confere lá!

Roube este Filme

Se você quer entender a fundo o cenário atual da “pirataria” digital, qual a razão dela existir e suas reais consequências na vida das pessoas, sejam produtores ou consumidores, então vocês precisa assistir ao documentário Roube este Filme.

Existem hoje duas partes desse documentário, que são essas disponíveis nos videos abaixos (e parece que já está em produção um terceiro filme).

Esse primeiro documentário, produzido em 2006, mostra como a Internet e as redes de compartilhamento trouxe uma grande mudança no hábito das pessoas de consumirem e produzirem conteúdos culturais e de entretenimento, seja em forma de texto, vídeo ou áudio.

Tendo isso em vista, a industria do entretenimento começou a perder o monopólio que até então tinha da produção e distribuição desses conteúdos, pois devido a Internet, há cada vez menos a necessidade de um intermediário entre produtores e consumidores. Então para não perder seu poder, a industria do entretenimento e suas entidades lobistas, como a MPAA, começaram a trabalhar suas influências nas diversas esferas governamentais para retirar as liberdades constitucionais dos cidadãos, e reaver deste modo seu poder.

E a MPAA não mostra pudor em ferir as leis federais e a autonomia dos Estados para caçar aqueles que ela chama erroneamente de piratas e criminosos (que na verdade, são seus próprios consumidores compartilhando com outros consumidores seu bens culturais na Internet). Isso é exemplificado no documentário com o caso da tentativa de fechamento do PirateBay em 2006 (e que foi processado novamente no ano passado) e dos vários processos que começaram a ser feito a cidadãos comuns para amedrontar e aterrorizar quem compartilha arquivos de forma livre e gratuíta na Intenet (o que é bem diferente de pirataria, pois o livre compartilhamento não envolve a comercialização e o lucro em cima desses arquivos).

Aliás, o documentário também explica o porquê de grupos políticos como o Partido Pirata da Suécia se autodenominarem de “piratas” apesar de não serem no sentido estrito do termo. Basicamente eles resolveram se apropriar do termo “pirata” de uma forma irônica e sarcástica. De tanto a industria do entretenimento os chamarem de “piratas”, essas pessoas então, mostrando um bom senso de humor, resolveram se assumir como tal. O problema disso, como já demosntrou caras como Richard Stallman, é que essa aceitação, mesmo que irônica, da denominação de “pirata” por parte das daqueles que apoiam o livre compartilhamento cria uma confusão nas pessoas que estão de fora do debate e que tendem e ver conceitos diferentes e diversos como uma coisa só (eu mesmo tenho que ficar o tempo todo ressaltando para os meus amigos a grande diferença que existe entre pirataria e livre compartilhamento).

Por fim, Roube este Filme procura derrubar um dos maiores mitos que a industria do entretenimento construi: de que um filme, música, ou livro baixado gratuitamente na Internet representa automaticamente a perda da venda deste produto. Estudos como este de Harvard (uma instuição respeitada e de autoridade acadêmica reconhecida) mostra que quem mais baixa e compartilha filmes, músicas e livros na Internet são justamente as pessoas que mais consomem e compram esses produtos. E para os autores e produtores, o livre compartilhamento de suas obras representa até mesmo um crecimento de consumidores, e consequentemente um aumento nos lucros.

Ou seja, processar essas pessoas e considerá-las criminosos como a industria do entretenimento vem fazendo não é só uma ato idiota, como um tiro no próprio pé, pois eles estão atacando os seus próprios clientes (eu não sou um expert em administração de empresas, mas tenho certeza que ficar acusando indevidamente meus clientes de criminosos não é algo muito saudável pro bom andamento dos negócios).

Já nesse segundo documentário, que eu considero até melhor que o primeiro, o foco muda para tentar explicar o que afinal de contas é esse tal de copyright? Deste modo, o documentário começa com uma volta ao sec. XVI, e mostra como que a partir da criação da prensa de Gutenberg começou a se desenvolver toda uma industria de impressão e distribuição de livros, massificando o acesso a informação como se nunca viu antes na História.

Assim sendo, a lei de copyright foi criada com um propósito muito específico, que era garantir o monopólio da impressão e distribuição de livros para algumas poucas guildas de livreiros, facilitando deste modo a censura e controle da informação pelas elites, autoridades e governantes da época. Então, diferente do que muita gente pensa, o copyright nunca foi pensando para proteger os autores, mas sim os distribuidores e outros intermediários (aliás, a proteção do autor se dá pelo direito autoral, que muita gente confunde com o copyright mas não são a mesma coisa).

O documentário também evidência como a industria do entretenimento demora a se adaptar as novas tecnologias de transmissão e reprodução de conteúdo, sendo sempre a sua primeira atitude a de considerar tais tecnologias como um perigo a própria industria, e seus usuários como criminosos. Foi assim com a rádio FM, com a TV a Cabo, com a Fita Cassete, e está sendo agora com a Internet, as redes P2P e o protocolo BitTorrent.

Mas não adianta a industria do entretenimento lutar contra as tecnologias de cópia e reprodução (e muitas dessas tecnologias foram criados por ela mesma) pois a comunicação em si é um ato de cópia. E a Internet, por ser uma rede de comunicação, é toda baseada no ato de copiar. Ela é uma gigantesca máquina de cópia sem dono. Você mesmo ao acessar esse blog, está fazendo uma cópia dele no cache de seu navegador. Assim sendo, quando você acessa um site, seja qual for, você executa uma cópia que em teoria não foi autorizada pelo dono do site, e segundo as leis atuais de copyright, essa cópia o transforma automaticamente num pirata (e por aí você já percebe a incoerência dessas leis e a necessidade de alterá-las para que se adaptem ao mundo digital).

E a mensagem mais forte que ambos os documentários trazem é que é impossível parar a “pirataria”, não por causa das tecnologias que facilitam a cópia e a distribuição de informação, mas sim devido a necessidade e o desejo das pessoas de compartilharem essas informações com outras pessoas. O próprio ato de conversar com alguém é um ato de compartilhar. Estamos apenas migrando esse hábito para um ambiente virtual em que mais pessoas podem se juntar a conversação. E a única forma eficaz de parar isso de vez é matando as pessoas. Será que a industria do entretenimento e suas entidades lobistas chegaram a esse extremo? Eu não duvido de mais nada.

Por fim, se você quer se aprofundar nesse debate sobre pirataria, livre compartilhamento, e a necessidade de revisão das leis de copyright, recomendo que leia urgentemente o livro Cultura Livre de Lawrence Lessig (que foi o criador do Creative Commons). Ele pode ser baixado gratuitamente no site da Trama Universitário.

Tenho certeza que após ler Cultura Livre vocês terá uma excelente bagagem de conhecimento para refletir por si próprio sobre esses assuntos, e não aceitará mais passivamente o discurso falacioso dos lobistas da industria de entretenimento.