A Vida de Quadrinista Independente Além da CCXP e dos Eventos de Quadrinhos

Plaquinhas CCXP

Participei de todos os Artists Alley da CCXP até aqui. Foram cinco em São Paulo e um em Recife. Todos eles geraram boas histórias para contar, mas esse último foi especial devido a minha despedida dos eventos de quadrinhos.

Agradeço de coração a todos que passaram pela minha mesa, seja para comprar meus quadrinhos, me trazer presentes, alimentos e analgésicos (bem úteis, aliás), ou apenas para trocar uma ideia. Um agradecimento especial para o Dan Arrows, meu companheiro de mesa, que teve paciência de me aguentar reclamando de dor todos os dias.

Foi muito bom participar da história da CCXP desde 2014. Mas minha história como quadrinhos começou muito antes, há quase 19 anos. E de lá pra cá já participei de todo tipo de evento vendendo meus quadrinhos, dos pequenos aos grandes. Mas essa fase na minha carreira como quadrinista acabou.

Como não irei mais publicar quadrinhos impressos, não faz mais sentido continuar participando dos Artists’ Alley dos eventos. Isso significa que também não distribuirei mais os quadrinhos que ainda tenho em estoque. Inclusive vou fechar minha loja online. Mas você poderá encontrar meus quadrinhos que ainda estão em estoque em livrarias especializada como a Ugra. Ou então comprando diretamente com meu pai no Bar Simões.

No entanto, isso não significa que não haverá mais quadrinhos impressos meu. Apenas eu mesmo não irei mais imprimi-los e vendê-los. E como pretendo disponibilizar sob Creative Commons os arquivos em alta das minhas HQs na Internet, você mesmo poderá imprimi-los. Inclusive para revendê-los comercialmente (algo permitido pela licença CC que eu uso).

Eu só preciso ainda ver como farei isso. Não dá pra disponibilizar esses arquivos no atual servidor dos meus sites pois eles são muito grandes, e não tem espaço disponível lá. Para isso, teria que contratar um plano de hospedagem mais caro, o que meu orçamento atual não permite. Talvez a alternativa por hora seria arranjar algum serviço de hospedagem gratuito (aliás, se alguém aí tiver indicações pra me dar, estou aceitando).

Além dos arquivos individuais de cada página com os layers abertos pra edição (para aqueles que possuem conhecimento técnico pra isso), estou pensando também em distribuir arquivos já fechados para impressão pra ser usado por qualquer um, sem necessidade de um conhecimento de edição.

Seriam dois tipos de arquivo, um pra impressão caseira, e outro em gráfica rápida. O arquivo para impressão caseira seria formatado de maneira que você possa imprimir a HQ na impressora que você tem em casa, em folha sulfite A4 mesmo (mas que viraria um livreto A5).

Já o arquivo em gráfica rápida ainda não sei em que formato fazer. Mas acho que vou adotar o gabarito da Print para impressão em livretos A5 (e dá pra selecionar as opções de papel e acabamento pré-formatada no site deles, então até mesmo um leigo conseguiria imprimir).

O problema aqui é que o mínimo de unidades que a Print imprimi de livretos é cinco exemplares, então não daria para imprimir um apenas pra você. Mas aí você poderia dar os outros quatro exemplares pra amigos, ou até revender se for o caso, pois como já disse acima, a licença CC que uso permite isso.

Mas ainda estou pensando nas possibilidades do que fazer pra distribuir esses arquivos em alta, e em que formatos. Como estou tentando fazer algo que nunca antes foi tentado aqui no Brasil para distribuição livre de quadrinhos (pelo menos nunca soube de nenhum outro quadrinistas que faça ou já tenha feito algo assim), estou tateando no escuro e sem ainda saber exatamente qual é o melhor caminho a seguir. Aliás, novamente, aceito sugestões.

No mais, estou ansioso para começar essa nova fase na minha carreira como quadrinista, no qual pretendo explorar ao máximo até onde vai os limites de um modo de produção e distribuição anticapitalista de obras artísticas, amparado nos preceitos da cultura livre. Algo me diz que será uma jornada maravilhosa. Ainda mais se eu puder contar com vocês ao meu lado nela.

CCXP 2018 e Produção Anticapitalista de Quadrinhos

CCXP 2018

Na semana que vem, dos dias 5 a 9 de dezembro, estarei na Comic Con Experience participando do Artists Alley (também conhecido aqui em Osasco como Quebrada dos Artistas). Você poderá me encontrar na mesa F44, que vou dividir com o Dan Arrow (autor do Samurai Boy).

Meu lançamento para o evento será um fanzininho do Homem-Grilo, com roteiro e arte de Alex Rodrigues, e diagramado pelo Will. Foi impresso uma tiragem limitadíssima de 100 exemplares. O fanzine custará apenas 2 reais. Duvido muito que você vá encontrar um quadrinho mais barato que esse no evento.

Como já tinha anunciado aqui no blog, essa será a última produção impressa que pretendo fazer, pois a partir do ano que vem vou tentar uma abordagem anticapitalista de produção de quadrinhos (apesar de dentro de uma sociedade capitalista, ao menos por enquanto).

E o primeiro passo para isso será desvincular nos meus leitores a noção atual de quadrinhos como um produto a ser vendido num mercado visando unicamente a acumulação de capital. Com isso o objetivo é que a longo prazo seja priorizado o valor de uso dos meus quadrinhos, e não seu valor de troca.

Para conseguir isso irei apenas publicar quadrinhos online sob distribuição livre e gratuita (inclusive disponibilizando os arquivos em alta pra quem quiser imprimir os quadrinhos por conta própria), com a produção financiada coletivamente, mas sem oferecer aos apoiadores nenhum tipo de brinde ou recompensa que não seja a própria produção da HQ em si, que poderá ser lida e usufruída por todo mundo, apoiadores ou não. (afinal, pra ser anticapitalista não pode ter exclusividade, vip, nem porra nenhuma dessas).

Obviamente as chances de uma proposta dessas dar errado são muito grandes, principalmente porque acho que não tenho ainda alcance, leitores, e nem relevância o suficiente para uma mudança de paradigma tão grande. Mas mesmo se eu falhar, creio que essa empreitada servirá ao menos como modelo para aqueles que quiserem seguir essa via e tiverem mais bala na agulha pra fazer acontecer.

No mais, acho que não há momento melhor para tentar uma loucura dessas do que agora com a grave crise no mercado editorial pelo qual estamos passando (e que, acredito, só vai se agravar durante o governo Bolsonaro). Eu, pelo menos, não tenho nada a perder. Talvez meus grilhões.

Zine do Homem-Grilo

Produzindo Quadrinhos na Lógica da Cultura Livre

Há 18 anos venho tentando produzir e publicar histórias em quadrinhos dentro de uma lógica que foge completamente da que foi estabelecida pelo mercado convencional de quadrinhos, e que num certo sentido essa lógica pode até mesmo ser considerada anticapitalista.

Se tem uma ideologia que carrego comigo e que acredito quase que piamente é a da cultura livre. Acredito que toda produção cultural (seja uma obra acadêmica ou artística) deve ser de acesso livre (tarifa zero) a todos.

A forma que encontrei para dar acesso livre as minhas obras foi disponibilizando-as gratuitamente na Internet sob licenças abertas como a Creative Commons, que permite que qualquer um possa copiar, compartilhar e redistribuir minhas obras em qualquer suporte ou formato, assim como transformar, remixar e criar outras obras a partir das minhas, mesmo que para uso comercial, desde que seja dado o crédito apropriado aos autores, que seja indicado a fonte das obras, e que qualquer obra derivada seja distribuída sob a mesma licença (dessa forma promovendo um ciclo virtuoso de cultura livre).

Mas existe um pequeno problema nesse modelo. Ainda que a obra seja de acesso livre e distribuída gratuitamente, a sua produção, no entanto, tem um custo (tanto material, quanto laboral e energético). Na minha sociedade ideal esses custos da produção cultural seriam pagos pelo conjunto da sociedade (que, relembrando, usufruiria dessa produção livremente) através do Estado e suas instituições culturais. Mas infelizmente não vivemos (ainda) nessa sociedade.

Como então custear uma produção cultural num modelo anticapitalista mas vivendo numa sociedade capitalista? Eu não sei. Ainda.

O que desde o começo venho tentando para custear a produção das minhas obras é imprimindo-as em formato de revistas ou livros e vendendo-as na forma de produtos. Bem, nada de novo aqui. Esse é o modelo padrão usado pelo mercado de quadrinhos desde que editoras como a Marvel e a DC (ainda não com esses nomes) começaram a produzir as primeiras revistas em quadrinhos no EUA no começo do século passado.

Por experiência própria posso dizer que o fato de meus quadrinhos estarem disponibilizados gratuitamente na Internet e em formato digital nunca me impediu de conseguir vendê-los em formato impresso. Creio que até mesmo ajudou a vender.

Mas o problema deste modelo padrão é que o custo da produção fica atrelado ao custo do produto, no caso, a revista ou o livro impresso. E esse atrelamento leva alguns leitores a avaliarem o valor pago pelas histórias em quadrinhos simplesmente por parâmetros materiais do produto impresso, como número de páginas, tipo de papel, acabamento da capa, etc. E qualquer quadrinista sabe que o custo material é o menor custo da produção, os maiores são os custos laboral e energético, que deixa de ser levado em conta pelo leitor em seu atrelamento das histórias em quadrinhos ao produto material em si (e que é reforçado pela cultura do colecionismo).

Outro problema é que eu não mais gostaria de ter que vender quadrinhos como um produto (ainda mais impresso). Todo o processo de vender o produto quadrinhos é muito trabalhoso, ainda mais para um quadrinista independente como eu que não conta com uma estrutura de vendas das grandes corporações como a Disney/Marvel.

Devido ao reumatismo, ficar me locomovendo até os eventos e feiras não é também muito fácil, ainda que eu já esteja andando melhor do que alguns anos atrás. Eu queria poder apenas produzir quadrinhos (e que todo mundo pudesse ler meus quadrinhos gratuitamente). Cada tempo que eu perco vendendo quadrinhos é tempo a menos produzindo quadrinhos. E tempo se tornou algo escasso pra mim. A cada dor reumática que sinto percebo claramente meu tempo se esgotando. Não dá mais pra desperdiçá-lo pois tem ainda mais algumas histórias que preciso contar antes de dizer adeus.

Mas não dá pra produzir quadrinhos se os custos de produção (sobretudo o laboral e energético) não forem pagos. Como então pagar os custos de produção de uma história em quadrinhos sem precisar vendê-la como produto? Eu não sei. Ainda.

O que recentemente comecei a testar para resolver esse problema é o modelo de financiamento coletivo recorrente. Mas diferente de muitos quadrinistas que também adotaram esse modelo, não pretendo dar aos apoiadores recompensas materiais, nem conteúdo exclusivo, muito menos acesso vip ou qualquer coisa do tipo. “Mas se você não pretende fazer nada disso, como vai convencer as pessoas a apoiarem?” Pois bem, eis o grande desafio.

A minha ideia é justamente tentar convencer os apoiadores de que eles não estão comprando um produto, nem assinando um serviço. Ou seja, desassociar o custo de financiamento da produção de uma história em quadrinhos com sendo o valor de um produto/serviço. O que eles receberão como “recompensa” pelo apoio é justamente a produção das histórias em quadrinhos que estão ajudando a financiar. E uma vez que os custos de produção estão pagos (material, laboral, energético), não só eles que ajudaram a bancar esses custos poderão ler as histórias, mas todo mundo. Sim, eu sei que não existe almoço grátis. Mas uma vez que o almoço foi pago e produzido, porque não compartilhar com os outros? Ainda mais quando esse almoço pode ser copiado e reproduzido infinitamente sem a perda ou o esgotamento de cada cópia.

Convencer as pessoas disso, no entanto, não tem sido lá muito fácil. Toda vez que falo desse modelo pra alguém, sinto que a pessoa me olha como se eu fosse maluco e estivesse delirando. No entanto, acho que nunca estive tão lúcido. E acredite em mim, é preciso de muita lucidez para manter a mente funcionando diante da dor reumática que nunca dá trégua, e não sucumbir a dopá-la com o arsenal de drogas que possuo (todas elas adquiridas legalmente, já deixo claro).

Mas apesar da árdua tarefa, acho que está valendo a pena tentar. É um esforço de formiguinha mesmo, pois é um trabalho de convencer cada pessoa para que abra mão de seus preceitos já cristalizados de como funciona o mercado de quadrinhos, e tentar adotar essa nova lógica de financiamento, produção e apreciação de obras culturais. Uma lógica no qual é preciso abandonar os preceitos individualistas no qual a nossa sociedade é moldada, que valoriza mais o ter do que o ser, e adotar valores amparados pela coletividade, pelo compartilhamento e pela colaboração. E se eu não conseguir, ao menos terá sido uma boa forma de ocupar a mente e não deixá-la ser inebriada pela dor.

Em tempo, já estou com uma campanha no Catarse Assinaturas para financiar a produção das histórias em quadrinhos do Homem-Grilo & Sideralman. Em breve pretendo também criar campanhas para financiar minhas outras obras, como Nova Hélade e Acelera SP.

Homem-Grilo & Sideralman - Catarse Assinaturas

Parte da Revolução

Capa do livro A Revolução do Gibi de Paulo Ramos.

No dia 19 deste mês eu fui ao lançamento do novo livro do Paulo Ramos, A Revolução do Gibi – A Nova Cara dos Quadrinhos no Brasil, que aconteceu na Livraria HQMix (que saiu da Praça Roosevelt e agora está em novo endereço, ao lado da FAAP). Neste livro, Paulo Ramos faz uma compilação de alguns dos posts que ele publicou em seu Blog dos Quadrinhos.

A grande sacada do livro é a organização dos posts em capítulos temáticos (como super-heróis, mangás, adaptação literária, etc) e com o acréscimo de comentários posteriores que os contextualizam dentro do que estava acontecendo na época em que foram postados no blog. Deste modo, A Revolução do Gibi acaba se tornando um retrato bem completo do mercado de quadrinhos no Brasil na primeira década do século XXI.

E eu fico feliz de saber que sou um dos protagonistas desta “revolução”, tendo a minha ainda curta carreira de quadrinista registrada nesse livro, em especial no capítulo dedicado aos quadrinhos independentes. Lá é citado o meu trabalho com o Homem-Grilo, na revista Garagem Hermética, e como fundador do Quarto Mundo.

Aliás, o Paulo Ramos foi o primeiro jornalista a noticiar sobre o Quarto Mundo (antes mesmo da estreia oficial do coletivo), em uma reportagem para programa Metrópolis da TV Cultura. O Paulo, como bom jornalista, não fica esperando as notícias caírem no seu colo (ou fica apenas publicando release de editora). Ele vai atrás delas.

No período entre o fim de 2006 e começo de 2007, o Paulo estava quase sempre nos lançamentos independentes em São Paulo (a maioria acontecia lá na “Menor Livraria do Mundo” no “Jeremias, O Bar”, gerenciados pelo Gual e a Dani, e que depois viriam a abrir a Livraria HQMix). E por estar presente nos lançamentos, o Paulo acabou percebendo a “movimentação” que estava acontecendo entre os autores e grupos independentes e que iria culminar na fundação do Quarto Mundo.

Já vai fazer três anos que estou fora do Quarto Mundo (sai do coletivo em setembro de 2009). E por ter saído sem fazer estardalhaço, muita gente ainda pensa que faço parte do Quarto Mundo, e nem sabe que estou fora do coletivo há tanto tempo. Mas o período em que estive no Quarto Mundo foi de vital importância para a minha evolução como quadrinista. Aprendi muito, tanto com os acertos, e principalmente com o erros, os quais não pretendo voltar a cometer nos meus projetos seguintes.

Um deles, na verdade, já está em execução há um pouco mais de um ano, que é o Petisco. Assim como o Quarto Mundo, o Petisco também é um coletivo de quadrinistas, mas as semelhanças param por aí. Enquanto o foco do Quarto Mundo são os quadrinhos impressos, o foco do Petisco são os quadrinhos digitais (mas sem excluir também os impressos).

O Quarto Mundo é um coletivo aberto, em que qualquer um pode fazer parte e colaborar, mesmo se você ainda for um quadrinista iniciante, ou que ainda não tenha uma boa qualidade técnica (pois a ideia do Quarto Mundo é que, em contato com outros quadrinistas, trocando informações e vivenciando todas as funções da cadeia produtiva de um quadrinho, você possa evoluir e se aprimorar). o Petisco, por sua vez, é um coletivo fechado. Pretendemos abrir para novos integrantes em breve, mas ainda assim, não será algo aberto, e os candidatos ao Petisco terão que passar por uma avaliação técnica, artística e editorial.

Já meu outro projeto, e que ainda vai demorar mais um pouco pra virar realidade, será a minha editora. A ideia de criar uma editora, na verdade, será apenas para eu ter uma firma aberta pra conseguir viabilizar certas coisas que eu não consigo viabilizar como pessoa física, pois o processo de produção continuará no esquema independente, e sob a filosofia do “código aberto” e da cultura livre.

Bem, toda essa volta que dei foi na verdade pra dizer que, de minha parte, a “revolução” está apenas começando. Apesar de eu já publicar quadrinhos há 12 anos, ainda tenho uma longa estrada a trilhar, e muito ainda o que evoluir como quadrinista.

Mas estou otimista, e acredito que os próximos anos serão extremamente bons para o mercado de quadrinhos no Brasil, sobretudo para a produção nacional. E pretendo com certeza continuar sendo um dos personagem atuantes desta história.

E você?

Ps: O último episódio do excelente podcast Café com HQ contou com a minha participação, no qual eu falo sobre webcomics, direitos autorais, e diversos outros assuntos relacionados (ou não). Confere lá!

Roube este Filme

Se você quer entender a fundo o cenário atual da “pirataria” digital, qual a razão dela existir e suas reais consequências na vida das pessoas, sejam produtores ou consumidores, então vocês precisa assistir ao documentário Roube este Filme.

Existem hoje duas partes desse documentário, que são essas disponíveis nos videos abaixos (e parece que já está em produção um terceiro filme).

Esse primeiro documentário, produzido em 2006, mostra como a Internet e as redes de compartilhamento trouxe uma grande mudança no hábito das pessoas de consumirem e produzirem conteúdos culturais e de entretenimento, seja em forma de texto, vídeo ou áudio.

Tendo isso em vista, a industria do entretenimento começou a perder o monopólio que até então tinha da produção e distribuição desses conteúdos, pois devido a Internet, há cada vez menos a necessidade de um intermediário entre produtores e consumidores. Então para não perder seu poder, a industria do entretenimento e suas entidades lobistas, como a MPAA, começaram a trabalhar suas influências nas diversas esferas governamentais para retirar as liberdades constitucionais dos cidadãos, e reaver deste modo seu poder.

E a MPAA não mostra pudor em ferir as leis federais e a autonomia dos Estados para caçar aqueles que ela chama erroneamente de piratas e criminosos (que na verdade, são seus próprios consumidores compartilhando com outros consumidores seu bens culturais na Internet). Isso é exemplificado no documentário com o caso da tentativa de fechamento do PirateBay em 2006 (e que foi processado novamente no ano passado) e dos vários processos que começaram a ser feito a cidadãos comuns para amedrontar e aterrorizar quem compartilha arquivos de forma livre e gratuíta na Intenet (o que é bem diferente de pirataria, pois o livre compartilhamento não envolve a comercialização e o lucro em cima desses arquivos).

Aliás, o documentário também explica o porquê de grupos políticos como o Partido Pirata da Suécia se autodenominarem de “piratas” apesar de não serem no sentido estrito do termo. Basicamente eles resolveram se apropriar do termo “pirata” de uma forma irônica e sarcástica. De tanto a industria do entretenimento os chamarem de “piratas”, essas pessoas então, mostrando um bom senso de humor, resolveram se assumir como tal. O problema disso, como já demosntrou caras como Richard Stallman, é que essa aceitação, mesmo que irônica, da denominação de “pirata” por parte das daqueles que apoiam o livre compartilhamento cria uma confusão nas pessoas que estão de fora do debate e que tendem e ver conceitos diferentes e diversos como uma coisa só (eu mesmo tenho que ficar o tempo todo ressaltando para os meus amigos a grande diferença que existe entre pirataria e livre compartilhamento).

Por fim, Roube este Filme procura derrubar um dos maiores mitos que a industria do entretenimento construi: de que um filme, música, ou livro baixado gratuitamente na Internet representa automaticamente a perda da venda deste produto. Estudos como este de Harvard (uma instuição respeitada e de autoridade acadêmica reconhecida) mostra que quem mais baixa e compartilha filmes, músicas e livros na Internet são justamente as pessoas que mais consomem e compram esses produtos. E para os autores e produtores, o livre compartilhamento de suas obras representa até mesmo um crecimento de consumidores, e consequentemente um aumento nos lucros.

Ou seja, processar essas pessoas e considerá-las criminosos como a industria do entretenimento vem fazendo não é só uma ato idiota, como um tiro no próprio pé, pois eles estão atacando os seus próprios clientes (eu não sou um expert em administração de empresas, mas tenho certeza que ficar acusando indevidamente meus clientes de criminosos não é algo muito saudável pro bom andamento dos negócios).

Já nesse segundo documentário, que eu considero até melhor que o primeiro, o foco muda para tentar explicar o que afinal de contas é esse tal de copyright? Deste modo, o documentário começa com uma volta ao sec. XVI, e mostra como que a partir da criação da prensa de Gutenberg começou a se desenvolver toda uma industria de impressão e distribuição de livros, massificando o acesso a informação como se nunca viu antes na História.

Assim sendo, a lei de copyright foi criada com um propósito muito específico, que era garantir o monopólio da impressão e distribuição de livros para algumas poucas guildas de livreiros, facilitando deste modo a censura e controle da informação pelas elites, autoridades e governantes da época. Então, diferente do que muita gente pensa, o copyright nunca foi pensando para proteger os autores, mas sim os distribuidores e outros intermediários (aliás, a proteção do autor se dá pelo direito autoral, que muita gente confunde com o copyright mas não são a mesma coisa).

O documentário também evidência como a industria do entretenimento demora a se adaptar as novas tecnologias de transmissão e reprodução de conteúdo, sendo sempre a sua primeira atitude a de considerar tais tecnologias como um perigo a própria industria, e seus usuários como criminosos. Foi assim com a rádio FM, com a TV a Cabo, com a Fita Cassete, e está sendo agora com a Internet, as redes P2P e o protocolo BitTorrent.

Mas não adianta a industria do entretenimento lutar contra as tecnologias de cópia e reprodução (e muitas dessas tecnologias foram criados por ela mesma) pois a comunicação em si é um ato de cópia. E a Internet, por ser uma rede de comunicação, é toda baseada no ato de copiar. Ela é uma gigantesca máquina de cópia sem dono. Você mesmo ao acessar esse blog, está fazendo uma cópia dele no cache de seu navegador. Assim sendo, quando você acessa um site, seja qual for, você executa uma cópia que em teoria não foi autorizada pelo dono do site, e segundo as leis atuais de copyright, essa cópia o transforma automaticamente num pirata (e por aí você já percebe a incoerência dessas leis e a necessidade de alterá-las para que se adaptem ao mundo digital).

E a mensagem mais forte que ambos os documentários trazem é que é impossível parar a “pirataria”, não por causa das tecnologias que facilitam a cópia e a distribuição de informação, mas sim devido a necessidade e o desejo das pessoas de compartilharem essas informações com outras pessoas. O próprio ato de conversar com alguém é um ato de compartilhar. Estamos apenas migrando esse hábito para um ambiente virtual em que mais pessoas podem se juntar a conversação. E a única forma eficaz de parar isso de vez é matando as pessoas. Será que a industria do entretenimento e suas entidades lobistas chegaram a esse extremo? Eu não duvido de mais nada.

Por fim, se você quer se aprofundar nesse debate sobre pirataria, livre compartilhamento, e a necessidade de revisão das leis de copyright, recomendo que leia urgentemente o livro Cultura Livre de Lawrence Lessig (que foi o criador do Creative Commons). Ele pode ser baixado gratuitamente no site da Trama Universitário.

Tenho certeza que após ler Cultura Livre vocês terá uma excelente bagagem de conhecimento para refletir por si próprio sobre esses assuntos, e não aceitará mais passivamente o discurso falacioso dos lobistas da industria de entretenimento.