Meu pai, Mario Simões, faleceu no último 24 de fevereiro de 2024.
Eu ainda estou passando pela fase de aceitação, pois não esperava de modo algum perder meu pai agora. Apesar de ele já estar doente há algum tempo, continuava com energia e trabalhando no seu bar (o Bar Simões), que ele herdou dos meus avós. Desde que se aposentou em 2019, ele ensaiava fechar o bar, e quase de fato o fechou definitivamente durante a pandemia. Mas, ao que parece, ele não conseguia viver sem ele e trabalhou lá praticamente até o último dia de sua vida.

Meu pai era sem sombra de dúvidas o maior fã das minhas histórias em quadrinhos, em especial do Homem-Grilo. Após o falecimento da minha avó em 2008, meu pai decidiu enfeitar o seu bar com os personagens do universo do meu super-herói. Até um manequim do Homem-Grilo ele fez. E aí aos poucos o Bar Simões passou a ser chamado por todos aqui em Osasco de Bar do Grilo.

Meu pai era um contador de histórias. Provavelmente foi dele que herdei a habilidade. Mas meu pai não era como eu. Eu só escrevo. Meu pai era um contador de histórias raiz, da mais antiga tradição oral dos aedos, daqueles que evocam as musas antes de iniciar cada causo, e que eram sempre verdadeiros, mesmo os mentirosos. Ninguém saia de seu bar sem antes ouvir uma de suas histórias.
Os antigos poetas gregos acreditavam que podemos viver eternamente através das histórias que contamos e que são contadas sobre nós. Portanto, apesar de ter enterrado meu pai, ele continuará vivo através das minhas histórias. Histórias em quadrinhos.

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