Roube este Filme

Se você quer entender a fundo o cenário atual da “pirataria” digital, qual a razão dela existir e suas reais consequências na vida das pessoas, sejam produtores ou consumidores, então vocês precisa assistir ao documentário Roube este Filme.

Existem hoje duas partes desse documentário, que são essas disponíveis nos videos abaixos (e parece que já está em produção um terceiro filme).

Esse primeiro documentário, produzido em 2006, mostra como a Internet e as redes de compartilhamento trouxe uma grande mudança no hábito das pessoas de consumirem e produzirem conteúdos culturais e de entretenimento, seja em forma de texto, vídeo ou áudio.

Tendo isso em vista, a industria do entretenimento começou a perder o monopólio que até então tinha da produção e distribuição desses conteúdos, pois devido a Internet, há cada vez menos a necessidade de um intermediário entre produtores e consumidores. Então para não perder seu poder, a industria do entretenimento e suas entidades lobistas, como a MPAA, começaram a trabalhar suas influências nas diversas esferas governamentais para retirar as liberdades constitucionais dos cidadãos, e reaver deste modo seu poder.

E a MPAA não mostra pudor em ferir as leis federais e a autonomia dos Estados para caçar aqueles que ela chama erroneamente de piratas e criminosos (que na verdade, são seus próprios consumidores compartilhando com outros consumidores seu bens culturais na Internet). Isso é exemplificado no documentário com o caso da tentativa de fechamento do PirateBay em 2006 (e que foi processado novamente no ano passado) e dos vários processos que começaram a ser feito a cidadãos comuns para amedrontar e aterrorizar quem compartilha arquivos de forma livre e gratuíta na Intenet (o que é bem diferente de pirataria, pois o livre compartilhamento não envolve a comercialização e o lucro em cima desses arquivos).

Aliás, o documentário também explica o porquê de grupos políticos como o Partido Pirata da Suécia se autodenominarem de “piratas” apesar de não serem no sentido estrito do termo. Basicamente eles resolveram se apropriar do termo “pirata” de uma forma irônica e sarcástica. De tanto a industria do entretenimento os chamarem de “piratas”, essas pessoas então, mostrando um bom senso de humor, resolveram se assumir como tal. O problema disso, como já demosntrou caras como Richard Stallman, é que essa aceitação, mesmo que irônica, da denominação de “pirata” por parte das daqueles que apoiam o livre compartilhamento cria uma confusão nas pessoas que estão de fora do debate e que tendem e ver conceitos diferentes e diversos como uma coisa só (eu mesmo tenho que ficar o tempo todo ressaltando para os meus amigos a grande diferença que existe entre pirataria e livre compartilhamento).

Por fim, Roube este Filme procura derrubar um dos maiores mitos que a industria do entretenimento construi: de que um filme, música, ou livro baixado gratuitamente na Internet representa automaticamente a perda da venda deste produto. Estudos como este de Harvard (uma instuição respeitada e de autoridade acadêmica reconhecida) mostra que quem mais baixa e compartilha filmes, músicas e livros na Internet são justamente as pessoas que mais consomem e compram esses produtos. E para os autores e produtores, o livre compartilhamento de suas obras representa até mesmo um crecimento de consumidores, e consequentemente um aumento nos lucros.

Ou seja, processar essas pessoas e considerá-las criminosos como a industria do entretenimento vem fazendo não é só uma ato idiota, como um tiro no próprio pé, pois eles estão atacando os seus próprios clientes (eu não sou um expert em administração de empresas, mas tenho certeza que ficar acusando indevidamente meus clientes de criminosos não é algo muito saudável pro bom andamento dos negócios).

Já nesse segundo documentário, que eu considero até melhor que o primeiro, o foco muda para tentar explicar o que afinal de contas é esse tal de copyright? Deste modo, o documentário começa com uma volta ao sec. XVI, e mostra como que a partir da criação da prensa de Gutenberg começou a se desenvolver toda uma industria de impressão e distribuição de livros, massificando o acesso a informação como se nunca viu antes na História.

Assim sendo, a lei de copyright foi criada com um propósito muito específico, que era garantir o monopólio da impressão e distribuição de livros para algumas poucas guildas de livreiros, facilitando deste modo a censura e controle da informação pelas elites, autoridades e governantes da época. Então, diferente do que muita gente pensa, o copyright nunca foi pensando para proteger os autores, mas sim os distribuidores e outros intermediários (aliás, a proteção do autor se dá pelo direito autoral, que muita gente confunde com o copyright mas não são a mesma coisa).

O documentário também evidência como a industria do entretenimento demora a se adaptar as novas tecnologias de transmissão e reprodução de conteúdo, sendo sempre a sua primeira atitude a de considerar tais tecnologias como um perigo a própria industria, e seus usuários como criminosos. Foi assim com a rádio FM, com a TV a Cabo, com a Fita Cassete, e está sendo agora com a Internet, as redes P2P e o protocolo BitTorrent.

Mas não adianta a industria do entretenimento lutar contra as tecnologias de cópia e reprodução (e muitas dessas tecnologias foram criados por ela mesma) pois a comunicação em si é um ato de cópia. E a Internet, por ser uma rede de comunicação, é toda baseada no ato de copiar. Ela é uma gigantesca máquina de cópia sem dono. Você mesmo ao acessar esse blog, está fazendo uma cópia dele no cache de seu navegador. Assim sendo, quando você acessa um site, seja qual for, você executa uma cópia que em teoria não foi autorizada pelo dono do site, e segundo as leis atuais de copyright, essa cópia o transforma automaticamente num pirata (e por aí você já percebe a incoerência dessas leis e a necessidade de alterá-las para que se adaptem ao mundo digital).

E a mensagem mais forte que ambos os documentários trazem é que é impossível parar a “pirataria”, não por causa das tecnologias que facilitam a cópia e a distribuição de informação, mas sim devido a necessidade e o desejo das pessoas de compartilharem essas informações com outras pessoas. O próprio ato de conversar com alguém é um ato de compartilhar. Estamos apenas migrando esse hábito para um ambiente virtual em que mais pessoas podem se juntar a conversação. E a única forma eficaz de parar isso de vez é matando as pessoas. Será que a industria do entretenimento e suas entidades lobistas chegaram a esse extremo? Eu não duvido de mais nada.

Por fim, se você quer se aprofundar nesse debate sobre pirataria, livre compartilhamento, e a necessidade de revisão das leis de copyright, recomendo que leia urgentemente o livro Cultura Livre de Lawrence Lessig (que foi o criador do Creative Commons). Ele pode ser baixado gratuitamente no site da Trama Universitário.

Tenho certeza que após ler Cultura Livre vocês terá uma excelente bagagem de conhecimento para refletir por si próprio sobre esses assuntos, e não aceitará mais passivamente o discurso falacioso dos lobistas da industria de entretenimento.

4 respostas para “Roube este Filme”

  1. Cadu, concordo com você quando diz da necessidade de se discutir e pensar a questão do copyright, porque eu acho que, diferente do vídeo, não é uma questão simples de "o compartilhamento afeta o lucro". Tem mais coisa por aí, mais pontos pra se ter atenção, porque quem lucra é justamente quem financia a produção. Acho justo que esse sujeito tenha retorno do investimento em alguma medida.

    Por outro lado, acho a divulgação 9e a produção) desse "documentário" (só vi a primeira parte) um desrespeito. E explico porquê. Não sei se vc percebeu, mas há, durante o curso dele, uma tentativa infantil (e amadora) dos produtores de infundirem mensagens escondidas (não, não são mensagens sublimiares, ou eu não as teria conseguido perceber conscientemente). Uma estratégia patética e vergonhosa, se quer a minha opinião… Tomei nota das que consegui visualizar (todas em fonte branca, caixa alta):

    1) aprox. 4:56: surge a palavra RESIST;
    2) logo em seguida à primeira, SHARE;
    3) aprox. 5:05: COPY;
    4) pouco depois da (3): PASTE;
    5) aprox. 5:40: ENJOY;
    6) em 6:37: há uma frase inteira que não consegui ler. Há um NOT no meio.

    Eu não sei se vc chegou a perceber esse artifício (creio que não) mas eu acho que, para quem discute esse tema dos copyrights há anos como você, com a seriedade que você vem tratanto o assunto, divulgar um vídeo tão infantil assim é contraproducente à sua própria história com o tema…

  2. Lucas, não vejo esses exemplos que você citou como sendo uma tentativa infantil de infundir mensagens escondidas e subliminares, muito pelo contrário, elas são bem óbvias e claras. Ambos os documentários são abertamente a favor da "pirataria" e contra o copyright, e não tentam esconder isso em nenhum momento.

    No mais, também acho justo que quem financia a produção de conteúdo cultural, seja música, vídeo ou literatura, tenha o retorno de seu investimento. Mas não acho justo que eles ditem como, quando e quantas vezes eu posso usufruir de um produto que eu paguei, e com quem eu posso ou não compartilhá-lo, como acontece atualmente. Um exemplo simples. Quando eu ainda dava aula de História, costumava levar meus DVDs com documentários do History Channel pra passar pros meus alunos na escola. No entanto, ao fazer isso, segundo as leis de copyright atual eu estava inflingindo a lei, pois ela diz que o DVD é apenas pra uso pessoal e domiciliar. Que dizer, não bastava eu ter um péssimo salário e condições precárias pra dar aula, como ainda por cima podia ser considerado um criminoso por tentar levar cultura aos meus alunos. Em um mundo civilizado em que se dá prioridade a educação e a cultura, isso não faz o menor sentido e vai totalmente contra o bom senso, e essas leis de copyright já teriam sido alteradas faz tempo.

    Por fim, diversas pesquisas, como essa de Harvard que linkei no post, mostram que quem de fato perde com a pirataria são os intermediários, e não os autores. E com o barateamente do custo de produção, a tendência é cada vez mais esses intermediários serem eliminados da cadeia produtiva, e os autores se tornarem seus próprios editores e distribuidores de conteúdo, entrando em contato direto com seus consumidores. E falo isso por experiência própria, pois já estou trabalhando nessse esquema há nove anos. =)

  3. Bem Cadu, eu não acho as mensagens tão claras assim não. Até agora não consegui ler a frase que pula na tela durante a propaganda do Governator com o Jack Chan. Digo infantil porque, bem, elas (as palavras de ordem) precisam ser veiculadas da forma como são? Colocadas um tanto obscuramente no meio das falas dos representantes da indústria? Não percebi nenhuma mensagem escondida enquanto os representantes do Pirate Bay falam, por exemplo.
    Então, fico cá com a impressão de que tentaram usar de mensagens subliminares (e falharam, ao menos pra nós), tentando "forçar a barra": dobrar a vontade do espectador e convencê-lo na marra… Num documentário que apela à consciência do espectador, é como gritar pra pedir silêncio…

    O problema do compartilhamento, Cadu, é que há diferenças. Você quer difundir um filme comprado por você, para fins educacionais. É uma coisa (e nunca vi um caso de um sujeito que fosse preso ou multado por fazer isso, mesmo sabendo que todos os DVDs de venda doméstica só podem ser exibidos em casa). Agora, quem coloca o episódio mais novo de Lost no Pirate Bay, pro mundo inteiro, logo depois dele estrear no canal de origem, faz a mesma coisa que você na escola? Nunca, nem de longe. O alcance ofensivo de uma coisa ou de outra é muito diferente. Por isso existem penas diferentes para crimes diferentes. Anular essa diferença, pra mim, é investir numa falácia. Pense no caso da música ou do cinema: quantas distribuidoras e gravadoras são as responsáveis por gerar a possibilidade de um produto artístico existir ou não (no sentido de custeá-lo)? Não sei se a distinção entre produtores e intermediários é tão clara assim em todos os casos…

  4. Lucas, o livre compartilhamento não vai levar nenhum conglomerado de mídia a falência, acredite, por mais que isso prejudique de algum modo as vendas. Até mesmo porque, como eu já disse, pesquisas mostram que o compartilhamento de séries na Internet, como é o caso de Lost que você citou, até faz vender mais DVDs. É por isso que algumas emissoras, como a própria ABC, estão elas mesma já jogando seus seriados online. Também nunca foi registrado comprovadamente que um filme teve prejuízo por causa da pirataria. Novamente pesquisas mostram que os filmes mais pirateados são justamente os que mais lucram, tanto com o filme no cinema em si, quanto com a venda posterior de DVDS.

    Por isso não há sentido em se criminalizar o livre compartilhamento na Internet se isso, como pesquisas vem mostrando, de fato não prejudica radicalmente a venda do produto original, e em alguns casos até mesmo aquece a venda deles (ainda mais se o produto for bom). E faz menos sentido ainda em ficar processando essas pessoas para ganhar muito mais dinheiro do que seria a real perda que as gravadores ou estúdios teriam de fato.

    Investir numa falácia é justamente esse dicurso das gravadoras, estúdios e editoras de que a queda brusca das vendas nos últimos dez anos se deve unicamente a pirataria, e não a progressiva má qualidade de seus produtos. A queda de vendas das gravadoras se deve muito mais ao vício de investir em bandas e artistas pré-fabricados e sem qualidade musical alguma; dos estúdios em investir em adaptações que não respeitam a obra original, em remakes pífios e pobres, e em blockbuster que só possuem efeitos gráficos e explosões, mas nenhum roteiro; e das editoras em investir em megas sagas que só servem pra matar e ressucitar personagens de forma medíocre e leviana. E esse tipo de coisa independe da pirataria. Mesmo se não tivesse a pirataria, tenho certeza que os grandes congromerados de mídia continuariam a perder essas vendas, pois os consumidores estão ficando cada vez mais esclarecidos e não estão aceitando qualquer porcaria facilmente. Hoje em dia as pessoas em geral pensam dez vezes antes de gastar R$ 30 num CD que só tem uma música que vale a pena, R$ 15 reais num filme que vale menos do que a pipoca, ou R$ 10 num gibi no qual mal se aproveita uma história. Pode ter certeza que se eles passassem a tratar seus consumidores com respeito e valorizassem muito mais seus produtos ao invés de se preocuparem com o lucro fácil e rápido, eles venderiam muito mais.

    Tendo tudo isso em vista, o livre compartilhamento é um uso justo se o direito autoral for respeitado, (que basicamente é você manter os créditos dos autores da obra e não comercializá-la ou ganhar lucro em cima dela de alguma forma sem a autorização dos autores), pois isso permite que os consumidores possam verificar se aquele filme, livro ou quadrinhos vale de fato o seu suado dinheiro a ser investido nele.

    E falo tudo isso como autor. Eu sobrevivo da venda de minhas obras, e mesmo assim não tenho medo da pirataria, e disponibilizo todas as minhas obras gratuitamente na Internet pra quem quiser baixar. Pois por experiência própria sei que isso só tem me ajudado a conquistar cada vez mais leitores e a vender mais.

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