O Fim do (Quarto) Mundo

Fim do Quarto Mundo.

Não faço mais parte do Quarto Mundo desde outubro de 2009. Uma série de fatores me levaram a sair do coletivo, mas o principal é que as funções que eu desempenhava lá dentro estavam me sobrecarregando, a ponto de não sobrar mais tempo hábil nem para minha produção pessoal. Dali pra frente continuei apenas ajudando o Quarto Mundo nas vendas dos quadrinhos em alguns eventos, mas já não tinha mais nenhuma relação na administração do grupo ou participação ativa dentro do coletivo.

O Quarto Mundo foi muito importante para o meu aprendizado como quadrinista, tanto pelo acertos, quanto pelos erros (os quais procuro não repetir no Petisco, o coletivo do qual agora faço parte). Não vejo seu fim como algo ruim, nem com tristeza, mas como uma jornada concluída.

A principal proposta do Quarto Mundo era ajudar a fortalecer um “mercado” de quadrinhos independentes que funcionasse em sinergia com o mainstream. E isso de fato aconteceu. A melhor amostra disso é o FIQ.

No primeiro FIQ que o Quarto Mundo participou, em 2007, havia, se não estou enganado, três estandes de quadrinhos independentes, sendo que um era o do Quarto Mundo, o outro o da Graffiti junto com outras publicações independentes de Belo Horizonte (e que mais tarde também iriam integrar o Quarto Mundo), e o terceiro era um estande reunindo a galera dos “Quadrinhos Dependentes” (mas ainda não com esse nome).

Já no último FIQ, de 2011, havia uns 10 estandes de grupos de quadrinistas independentes, e diversos outros que estavam com mesas, como foi o meu caso com o Petisco. Uma evolução e tanto, não?

Diante desse novo cenário, um grupo tão grande e com tantos membros como o Quarto Mundo (e que se tornou engessado justamente por seu tamanho) não faz mais sentido já que há diversos outros grupos ocupando o espaço nos eventos e alimentando a produção independente, como é o caso do próprio Petisco.

Ou seja, o Quarto Mundo pode ter acabado mas seus ideais continuam firmes e fortes em diversos outros coletivos independentes que continuam mantendo a produção de quadrinhos viva por todo Brasil, seja de forma impressa, ou online na Internet.

O Quarto Mundo está morto. Vida longa ao Quarto Mundo. =D

Parte da Revolução

Capa do livro A Revolução do Gibi de Paulo Ramos.

No dia 19 deste mês eu fui ao lançamento do novo livro do Paulo Ramos, A Revolução do Gibi – A Nova Cara dos Quadrinhos no Brasil, que aconteceu na Livraria HQMix (que saiu da Praça Roosevelt e agora está em novo endereço, ao lado da FAAP). Neste livro, Paulo Ramos faz uma compilação de alguns dos posts que ele publicou em seu Blog dos Quadrinhos.

A grande sacada do livro é a organização dos posts em capítulos temáticos (como super-heróis, mangás, adaptação literária, etc) e com o acréscimo de comentários posteriores que os contextualizam dentro do que estava acontecendo na época em que foram postados no blog. Deste modo, A Revolução do Gibi acaba se tornando um retrato bem completo do mercado de quadrinhos no Brasil na primeira década do século XXI.

E eu fico feliz de saber que sou um dos protagonistas desta “revolução”, tendo a minha ainda curta carreira de quadrinista registrada nesse livro, em especial no capítulo dedicado aos quadrinhos independentes. Lá é citado o meu trabalho com o Homem-Grilo, na revista Garagem Hermética, e como fundador do Quarto Mundo.

Aliás, o Paulo Ramos foi o primeiro jornalista a noticiar sobre o Quarto Mundo (antes mesmo da estreia oficial do coletivo), em uma reportagem para programa Metrópolis da TV Cultura. O Paulo, como bom jornalista, não fica esperando as notícias caírem no seu colo (ou fica apenas publicando release de editora). Ele vai atrás delas.

No período entre o fim de 2006 e começo de 2007, o Paulo estava quase sempre nos lançamentos independentes em São Paulo (a maioria acontecia lá na “Menor Livraria do Mundo” no “Jeremias, O Bar”, gerenciados pelo Gual e a Dani, e que depois viriam a abrir a Livraria HQMix). E por estar presente nos lançamentos, o Paulo acabou percebendo a “movimentação” que estava acontecendo entre os autores e grupos independentes e que iria culminar na fundação do Quarto Mundo.

Já vai fazer três anos que estou fora do Quarto Mundo (sai do coletivo em setembro de 2009). E por ter saído sem fazer estardalhaço, muita gente ainda pensa que faço parte do Quarto Mundo, e nem sabe que estou fora do coletivo há tanto tempo. Mas o período em que estive no Quarto Mundo foi de vital importância para a minha evolução como quadrinista. Aprendi muito, tanto com os acertos, e principalmente com o erros, os quais não pretendo voltar a cometer nos meus projetos seguintes.

Um deles, na verdade, já está em execução há um pouco mais de um ano, que é o Petisco. Assim como o Quarto Mundo, o Petisco também é um coletivo de quadrinistas, mas as semelhanças param por aí. Enquanto o foco do Quarto Mundo são os quadrinhos impressos, o foco do Petisco são os quadrinhos digitais (mas sem excluir também os impressos).

O Quarto Mundo é um coletivo aberto, em que qualquer um pode fazer parte e colaborar, mesmo se você ainda for um quadrinista iniciante, ou que ainda não tenha uma boa qualidade técnica (pois a ideia do Quarto Mundo é que, em contato com outros quadrinistas, trocando informações e vivenciando todas as funções da cadeia produtiva de um quadrinho, você possa evoluir e se aprimorar). o Petisco, por sua vez, é um coletivo fechado. Pretendemos abrir para novos integrantes em breve, mas ainda assim, não será algo aberto, e os candidatos ao Petisco terão que passar por uma avaliação técnica, artística e editorial.

Já meu outro projeto, e que ainda vai demorar mais um pouco pra virar realidade, será a minha editora. A ideia de criar uma editora, na verdade, será apenas para eu ter uma firma aberta pra conseguir viabilizar certas coisas que eu não consigo viabilizar como pessoa física, pois o processo de produção continuará no esquema independente, e sob a filosofia do “código aberto” e da cultura livre.

Bem, toda essa volta que dei foi na verdade pra dizer que, de minha parte, a “revolução” está apenas começando. Apesar de eu já publicar quadrinhos há 12 anos, ainda tenho uma longa estrada a trilhar, e muito ainda o que evoluir como quadrinista.

Mas estou otimista, e acredito que os próximos anos serão extremamente bons para o mercado de quadrinhos no Brasil, sobretudo para a produção nacional. E pretendo com certeza continuar sendo um dos personagem atuantes desta história.

E você?

Ps: O último episódio do excelente podcast Café com HQ contou com a minha participação, no qual eu falo sobre webcomics, direitos autorais, e diversos outros assuntos relacionados (ou não). Confere lá!

Relatório Rio Comicon 2010

Estande do Quarto Mundo na Rio Comicon.
Estande do Quarto Mundo na Rio Comicon.

Adorei a semana em que estive no Rio participando da Rio Comicon. Apesar de todas as falhas que o evento teve (muitas, compreensíveis, presentes em qualquer evento de grande porte), posso considerar que, ao menos pra mim, o saldo final do evento foi positivo em diversos fatores.

Viajei para o Rio de Janeiro junto com Daniel Esteves e com o Will, e todos nós ficamos hospedados na casa da Ana Recalde (e valeu novamente pela hospedagem, Aninha, que Zeus Xenios, considerados pelos antigos gregos como o patrono dos viajantes e dos que hospedam os estrangeiros, te proteja!). Como havia dito no meu último post, fui para a Rio Comicon para vender meus quadrinhos no estande do Quarto Mundo (apesar de não mais fazer parte do coletivo, me foi cedido vender meus quadrinhos no estande deles, e em troca eu trabalhei na administração do estande e colaborei vendendo as demais revistas do Quarto Mundo, que afinal, é algo que eu já fazia quando ainda era do coletivo). E posso dizer que bati todos os recordes de vendas nessa Rio Comicon, sendo que algumas das revistas, bottons e chaveiro que eu levei se esgotaram completamente. E o mesmo pode ser dito de todo o estande do Quarto Mundo, que vendeu bastante, mesmo das revistas mais antigas, mas que, ao que parece, ainda não eram tão conhecidas do público do Rio, fazendo com que mesmo essas revistas ainda fossem novidades pra eles.

Também ministrei duas oficinas lá na Rio Comicon. A primeira, que já estava na programação oficial, foi sobre Webcomics, e estava lotada. Não esperava que tanta gente fosse se interessar pelo tema (em geral as oficinas mais concorridas costumam ser as de temas mais básicos, como roteiro ou desenho). A sala da oficina estava tão cheia, que algumas pessoas tiveram que se sentar no chão. E alguns, infelizmente, acabaram ficando sem a apostila da oficina, pois a organização do evento não havia impresso exemplares extras.

E quase que uma falha na conexão com a Internet do meu EeePc acabou estragando a oficina, mas graças a ajuda do quadrinistas Marcos Noel, que estava assistindo a minha oficina e cedeu gentilmente o seu notebook para que pudesse usar no lugar do meu, tudo ocorreu como programado e eu consegui mostrar todos os exemplos e sites de webcomics que eu queria. No fim, pelos comentários que recebi, apesar de básica, a oficina se mostrou bem proveitosa para galera, e ajudou mesmo aqueles que já estavam publicando suas webcomics e já tinham alguma experiência no assunto.

Cadu Simões ministrando uma oficina de webcomics na Rio Comicon.
Oficina de Webcomics.

Outra oficina que ministrei foi a de Fanzine. Originalmente era para essa oficina ser ministrada pelo Marcos Venceslau, mas como ele não pode ir, eu e o Will acabamos substituindo ele. Aqui a pegada já foi bem diferente da oficina de webcomics, e abandonamos completamente o computador e as novas tecnologias, e focamos no bom e velho fanzininho feito de papel. Ensinamos a galera como se montar o boneco de um fanzine simples, e também como dobrar, cortar, e as melhores formas de reproduzir e fazer cópias (como mimiógrafo, xerocs, impressão a laser, etc). Essa oficina de fanzine não tinha tanta gente, ainda mais se comparada com a de webcomics, mas isso foi bom, pois assim deu para dar mais atenção a cada aluno individualmente, e também fazer eles botarem a mão na massa, e ao final da oficina, cada um saiu com seu próprio fanzine prontinho pra ser copiado e vendido.

Muito se comentou sobre a falta da participação das editoras na Rio Comicon. Eu já imaginei que isso fosse ocorrer devido ao histórico de não participação das editoras em eventos de quadrinhos pelo Brasil, como tem, por exemplo, ocorrido com o FIQ, evento realizado pela mesma equipe de pessoas que organizaram a Rio Comicon. Salvo raras exceções, a maioria das editoras, e seus editores, não possuem o hábito de estarem presentes nesses eventos com estandes, para que possam vender seus quadrinhos diretamente aos seus leitores (de preferência com desconto, já que no evento pode ser reduzido do preço de capa todos os custos com distribuidoras, livreiros, entre outros intermediários) e também atender aos quadrinistas interessados em apresentar seus projetos e portfólios a essas editoras.

Na seção de comentários do Blog do Universo HQ, sobre a crítica da Rio Comicon feita pelo Sidão e pelo Delfin, o Roberto Ribeiro, principal mentor do evento, respondeu que entrou em contato com as editoras de quadrinhos e encontrou dificuldades em convencê-las em participar da Rio Comicon (e ele ressalta que o mesmo já havia ocorrido com o FIQ, como salientei acima). Roberto disse que o principal motivo da não participação das editoras é uma desconfiança no potencial comercial de eventos do gênero. Se for esse mesmo o motivo, é uma pena, pois mostra como os editores possuem uma visão estreita. Não adianta os editores reclamarem do mercado de quadrinhos, se eles mesmo não investem no seu crescimento, e participar de eventos é uma boa forma de se fazer isso.

Até o momento a única resposta que houve a esse comentário do Roberto por parte de uma editora foi da Cia da Letras, em um comentário deixado também no Blog do Universo HQ pela Diana, que cuida da parte de redes sociais da Cia das Letras. Diana diz nesse comentário que a editora entrou em contato com a Rio Comicon diversas vezes perguntando sobre quais eram as possibilidades para a Cia da Letras montar um estande próprio no evento, e segundo ela, diversas vezes a organização respondeu que ia passar a eles essas informações, mas nunca passou. Aliás, se eu não engano, a Cia das Letras era a única editora que possuía estande próprio no FIQ do ano passado, e por já terem mostrado efetiva participação num evento de quadrinhos, foi uma grande falta não termos um estande deles também na Rio Comicon.

É uma pena que as outras editoras também não tenham se pronunciado a respeito da ausência delas na Rio Comicon, pois assim ficamos sem o lado delas da história, e ficamos sem saber se isso ocorreu de fato por descaso com o evento por parte delas, ou se houve falha de comunicação por parte da organização, como parece ter ocorrido no caso da Cia das Letras.

Cadu Simões autografando uma edição da revista do Homem-Grilo.
Autografando a revista do Homem-Grilo.

Mas se a organização do evento e as editoras parecem estar batendo cabeças, os quadrinistas ao menos estão fazendo suas partes e muitos deles participaram da Rio Comicon, seja com estandes próprios ou vendendo seus quadrinhos de mão em mão mesmo. Isso, aliás, é algo que também já vinha ocorrendo no FIQ, e se intensificou ainda mais na Rio Comicon. Como disse o Gabriel Bá em seu blog, somente o contato direto entre o autor e o público é que realmente pode consolidar o mercado nacional de quadrinhos. E a participação dos quadrinistas na Rio Comicon foi uma amostra disso.

Ao que tudo indica, a Rio Comicon será anual, então já teremos uma outra edição do evento em 2011. E segundo o Roberto Ribeiro, também haverá mais uma edição do FIQ em novembro do ano que vem. Ou seja, para 2011 já temos confirmados ao menos dois eventos internacionais de quadrinhos sendo realizados no Brasil. Isso sem contar com o boato que tenho ouvido de que São Paulo também sediará uma Comic Con no ano que vem (mas ao que parece, esse evento não será organizado pela mesma equipe do FIQ e da Rio Comicon). E quanto mais eventos de quadrinhos tivermos pelo Brasil melhor será, pois isso só contribui para o crescimento do mercado brasileiro. De minha parte, tentarei estar presente na maior quantidade de eventos que puder, pois adoro estar em contato direto com meus leitores, e saber diretamente da boca deles o que eles acham do meus quadrinhos.

Pra finalizar, segue abaixo alguns links de outras análises e relatos feito por outras pessoas sobre a Rio Comicon:

  • Gibizada: O Télio Navega e a Lívia Brandão fazem um balanção geral da Rio Comicon. Aliás, vale dar uma olhada nos outros posts do Gibizada sobre o evento, pois ele fizeram uma cobertura bem completa.
  • Daniel Gnattali: Divertido relato sobre a Rio Comicon feito em quadrinhos por Daniel Gnattali (algo parecido com as coberturas em quadrinhos da Campus Party que eu e o Gil Tokio fizemos).
  • Quadrinhos pra Quem Gosta: Um detalhado relato de todos os dias da Rio Comicon feito por Gabriel Guimarães, incluindo até mesmo as oficinas, como a minha de webcomics.
  • Dimensão X: Outro relato bem legal da Rio Comicon feita pelo Ygor, que inclusive comprou algumas revistas minhas – e espero que ele tenha gostado. =D
  • Denis Mello: Como foi a Rio Comicon sob o ponto de vista do quadrinista Denis Mello, que estava lá no evento com um estande vendendo suas HQs .
  • Uarévaa: Mais outro divertido relato da Rio Comicon, feito pelo Julio (vulgo Freud), e que também adquiriu uma edição da revista do Homem-Grilo – provavelmente pra forrar a casinha do cachorro dele. =)
  • The Beat: Um extensivo relatório da Rio Comicon feito por Jeff Newelt, um dos membros do ACT-I-VATE, coletivo de webcomics que foi uma das minhas inspirações na criação do Quarto Mundo.

É isso aí cambada, até o próximo evento de quadrinhos. ;D

Oficina de Webcomics na Rio Comicon

Cartaz da Rio Comicon por Milo Manara.

Enquanto não consigo ir nos grandes eventos internacionais de quadrinhos, como a San Diego Comicon, o Festival de Angoulême, e o Festival de Amadora, estou ao menos conseguindo ir nos grandes eventos de quadrinhos realizados pelo Brasil. Só esse ano já fui à Anime Dreams, SP Comic Fair, HQCon e Fest Comix. E o próximo evento na agenda é a Rio Comicon, que acontece entre 9 à 10 de novembro, na Estação Leopoldina, na cidade do Rio de Janeiro.

Irei ministrar uma oficina sobre webcomics na Rio Comicon, no dia 10 de novembro, das 18h às 19h30. Essa oficina é voltada tanto aos quadrinistas iniciantes quanto aos profissionais que já publicam quadrinhos de forma tradicional há tempos, mas gostariam de adentrar também a esse universo dos quadrinhos digitais. A minha ideia com essa oficina é dar um panorama geral de como está o mercado de webcomics e quadrinhos digitais hoje em dia, além de mostrar as melhores formas e ferramentas pra se publicar quadrinhos onlines. E principalmente, irei mostrar quais são os principais modelos de negócios para se ganhar dinheiro publicando webcomics.

Além dessa oficina, também estarei todos os dias do evento no estande do Quarto Mundo vendendo minhas histórias em quadrinhos, como o Homem-Grilo e Nova Hélade, entre outras.

Se você me ver andando pela Rio Comicon, dê uma alô. Adoro conhecer meus leitores e bater um papo, pois aprendo muito com vocês. E isso faz com que eu produza histórias em quadrinhos cada vez melhores. =)

Para quem não for, vou tentar na medida do possível (não sei exatamente se terei acesso a Internet lá do evento) manter vocês atualizados através do meu twitter sobre o que anda rolando na Rio Comicon.

E pra quem for, vejo vocês lá! =D

Eu não Apoio a HQ Nacional

Antes que você se assuste com o título deste post, eu juro que ele tem um porquê, e eu vou explicá-lo. Afinal, é no mínimo estranho que um autor de HQ Nacional, e inclusive um que até mesmo montou um coletivo pra ajudar na produção de quadrinhos nacional, faça uma afirmação como a do título.

Mas antes de explicar o título quero comentar sobre o que me motivou a escrever esse post. Trata-se da campanha “Eu apóio a HQ Nacional” criada por Carlos Vázquez no fórum HQM. A idéia da campanha é simples. Vázquez criou diversos banner com desenhos e ilustrações de personagens e quadrinhos brasileiros e que devem ser utilizados por aqueles que apoiam a HQ brasileira em suas assinaturas nos fóruns de discussões, comunidades, blogs, etc.

Apesar de se tratar de um ato simples, essa campanha foi uma boa sacada e tem um grande potencial. E isso por um simples e único motivo. Ela foi criada por um leitor.

Mas o que isso tem de mais? – você deve estar se perguntando. Veja, de nada vale dizer que eu apoio os quadrinhos nacionais. Como autor de quadrinhos, minha opinião sobre esse assunto não tem valor algum, já que se trata de uma opinião totalmente interessada. É claro que um autor de quadrinhos irá apoiar a produção de quadrinhos de seu país, seja ele qual for, já que ele é o principal beneficiário da valorização dessa produção em seu país.

No entanto, a opinião de um leitor sobre esse assunto tem um valor tremendo, pois não se trata de uma opinião interessada. Um leitor não ganha nada, a princípio, em dizer que apoia a produção de quadrinhos de seu país. O que importa para o leitor é que ele tenha boas histórias para ler, independente do país onde elas foram produzidas. Então quando um leitor diz que apoia os quadrinhos nacionais, tem muito mais chance de ser ouvido pelos outros leitores, do que se isso fosse dito por um quadrinista.

É por isso que eu digo que essa campanha iniciada por Vázquez tem um grande potencial. Pois as várias campanhas criadas anteriormente semelhantes a essa foram criadas por quadrinistas. E o pior, tinham um apelo nacionalista e ufanista que para mim é um tremendo atraso pros quadrinhos nacionais, pois mais afugenta leitores do que atraem sua simpatia.

Mas no que efetivamente pode ajudar os quadrinhos nacionais essa campanha do Vázquez? Bem, esse simples ato do leitor enunciar que apoia a HQ nacional já ajuda em algo que faz toda a diferença para nós quadrinista: ajuda a diminuir o preconceito contra os quadrinhos nacionais. E esse preconceito está assentado sobre uma generalização idiota (aliás, como toda generalização): “todos os quadrinhos brasileiros são ruins!”.

Eu não sei dizer o porquê desse preconceito, ou como ele surgiu e se espalhou tão amplamente entre os leitores, mas o que eu sei é que ele existe, e como autor de quadrinhos, presenciei ele várias vezes. O leitor com esse preconceito julga todo e qualquer quadrinhos brasileiro como ruim apenas por ser brasileiro. Ele não se dá chance de nem mesmo conhecer a obra antes de julgá-la (daí o preconceito).

Uma campanha de apoio a HQ nacional capitaneada por leitores ajuda a diminuir o preconceito na medida que é um leitor mostrando pra outro leitor que existe sim quadrinhos brasileiros ruins, mas também existe quadrinhos brasileiros bons. Isso é algo que acontece no mercado de quadrinhos de qualquer país, seja o EUA, seja a França, seja a Itália, seja o Japão, e não teria porque ser diferente com o Brasil. Aliás, segundo a Lei de Sturgeon, 90% da produção de qualquer país será ruim, e apenas 10% será realmente boa, algo que eu já expliquei no Manifesto Quartomundista.

E é por isso que eu não apoio a HQ Nacional. O que eu apoio sim, e sempre vou apoiar, são esses 10% de produção nacional de boa qualidade. E é isso que todo mundo deve fazer. Apoiar a produção de quadrinhos brasileiros de qualidade, para que ela aumente cada vez mais. Mas o que todo mundo deve por em mente é que por mais que haja produção de qualidade no mercado de quadrinhos interno de um país, sempre haverá mais produção ruim do que de boa qualidade, pois a proporção 90/10 da Lei de Sturgeon nunca se altera (ainda que essa proporção não seja exatamente 90/10, o que é fato é que a produção ruim sempre será bem maior do que a de boa qualidade).

Os EUA é o melhor exemplo disso. Ele publicam milhares de títulos de quadrinhos por mês no país, mas é possível contar nos dedos da mão (do Lula) quantos são os títulos realmente geniais publicados por mês. Seria então esperar demais que o Brasil produzisse mais títulos geniais de quadrinhos do que o EUA, tendo uma produção de quadrinhos tão pequena a ponto de nem podermos dizer que temos um mercado de fato. Como a atual produção de quadrinhos brasileira está numa média de 10 títulos por mês, será sorte se tivermos ao menos um título genial sendo publicada por mês. E é por isso que a principal bandeira do Quarto Mundo é incentivar o aumento da produção de quadrinhos pelos quadrinistas brasileiros. Pois só aumentando a produção é que faremos com que os títulos bons aumentem, ainda que isso também faça aumentar os títulos ruins. Como eu já disse, isso é algo inevitável. Todo e qualquer país terá sempre um mercado de quadrinhos composto pela maioria de títulos ruins e uma minoria de títulos bons, e o Brasil não tem porque ser exceção.

Mas voltemos a campanha de apoio a HQ Nacional criada por Vázquez. Apesar dela ter sido uma boa sacada, apenas ficar nesse ato de colocar um banner enunciando seu apoio, ainda que seja um ato emblemático, não terá um efeito concreto na produção de quadrinhos brasileira em si. A minha sugestão é que a campanha incentive os leitores a uma atitude mais concreta e prática, como por exemplo, dar um quadrinhos nacional de presente pra quem vc gosta, como eu sugeri no Dia do Quadrinho Nacional.

Poderia até mesmo ser criado uma nova série de banners indicando que a pessoa recebeu um quadrinho nacional de presente de alguém, e que por isso se compromete a também dar de presente um quadrinhos nacional para outra pessoa. Assim será criado uma grande corrente de pessoas dando e recebendo quadrinhos nacionais de presentes. Uma atitude dessas com certeza irá aquecer as vendas de quadrinhos nacionais (os bons quadrinhos nacionais), incentivando seus autores a continuarem produzindo e melhorando.

Essa atitude é também uma boa forma de criar novos leitores livres de preconceitos. Afinal, se dou de presente para um amigo um quadrinho nacional, ele vai no mínimo ler esse quadrinho antes de criticar. Tenha ele gostado ou não da HQ após lê-la, ao menos terá sido um julgamento sincero e livre de preconceitos.

Para concluir, o que nós autores de quadrinhos de fato queremos, não é que as pessoas apoiem os quadrinhos nacionais simplesmente por apoiar. Assim como também não queremos que elas sejam preconceituosas e julgem toda a produção de quadrinhos brasileira como lixo apenas por ser brasileira. O que queremos é que você tenha seus próprios julgamentos e compre os quadrinhos brasileiros que você achar que valem a pena ser comprados. E o melhor apoio aos quadrinhos nacionais que você pode dar é mostrando para outros leitores aqueles quadrinhos brasileiros que você leu e gostou. Você pode dar de presente para eles, ou emprestar, ou até mesmo escanear e enviar para ele uma cópia digital (e como vários autores nacionais já disponibilizam versões digitais de seus quadrinhos, talvez você nem tenha esse trabalho de escanear).

Com esse ato você estará formando novos leitores de quadrinhos brasileiros livres de preconceito, que por sua vez poderá formar novos leitores, e essa corrente a longo prazo irá ajudar a criar e fortalecer um mercado de quadrinhos nacional que poderá produzir cada vez mais obras de boa qualidade. Pois a existência de um mercado de quadrinho forte permite que o quadrinista possa ter uma remuneração suficiente para viver apenas de quadrinhos. Desta forma, ele pode focar todo seu esforço e trabalho apenas em criar boas HQs para você ler. E se você leitor puder contribuir com a criação deste mercado, pode ter certeza, terá sido o melhor apoio a HQ nacional que você deu.