Sobre Anticapitalismo, Reumatismo, Crise e Isolamento

Este final de semana está acontecendo mais uma CCXP, e isso me lembra que já vai fazer um ano que me aposentei dos eventos de quadrinhos (o último que participei foi justamente a CCXP 2018). Decisão que tomei a princípio devido ao meu problema de saúde com o reumatismo, mas que serviu como estímulo para eu enfim adotar uma produção de quadrinhos anticapitalista que vinha ensaiando há algum tempo (e que já abordei em postagens anteriores aqui do blog).

Mas o que significa produzir quadrinhos de forma anticapitalista? Bem, pra isso precisamos primeiro entender o que é o capitalismo. E ele pode ser entendido como um sistema socioeconômico no qual os processos de circulação e acumulação de capital são hegemônicos na formação das bases materiais da nossa vida social e política.

Então uma produção anticapitalista de quadrinhos deve desvincular nos leitores a noção capitalista de quadrinhos como uma mercadoria a ser vendida num mercado visando a acumulação de capital (sobretudo quando falamos das grandes corporações como a Marvel/Disney). Com isso o objetivo é que a longo prazo seja priorizado pelos leitores o valor de uso dos quadrinhos, e não seu valor de troca (fazendo com que a acumulação de capital não seja mais o fator hegemônico na cadeia produtiva).

E o valor de uso dos quadrinhos é o seu valor como objeto cultural e artísticos propagador de histórias, narrativas e experiências que possam gerar repostas tanto emocionais quanto intelectuais nos leitores, e também, porque não, políticas. De tal modo que os leitores sintam vontade de compartilhar esses quadrinhos com outras pessoas, e até mesmo de criar seus próprios quadrinhos a partir desses, propagando ainda mais o valor de uso dos quadrinhos na sociedade.

Isso só é possível, no entanto, se esses quadrinhos forem distribuídos numa lógica de copyleft e de cultura livre, que permita que eles possam ser livremente acessados, compartilhados e remixados. E deste modo a remuneração do produtor não está mais atrelada ao comércio de uma mercadoria (já que a HQ não existe mais como tal), mas aos custos que ele tem em se manter produzindo. Afinal, apesar de a produção ser anticapitalista, o produtor ainda vive (por enquanto) numa sociedade capitalista e precisa pagar suas contas dentro da lógica desse sistema.

E dadas as condições materiais postas por eu ainda estar inserido numa sociedade capitalista, a única forma que vejo de produzir quadrinhos de forma anticapitalista é abandonando totalmente os quadrinhos impressos (e seus modos de distribuição) e adotando apenas o formato de publicação e distribuição digital. E a remuneração sendo feita de forma espontânea pelos leitores através de financiamento coletivo recorrente.

Deste modo, mesmo que eu milagrosamente me curasse do reumatismo hoje, não faria mais sentido pra mim voltar a imprimir meus quadrinhos e ir vendê-los em livrarias ou nos eventos como fiz nos últimos 19 anos.

Mas eu não estou curado, e a doença tem me atrapalhado bastante a colocar esse meu plano em ação. Já era pra eu estar com uma boa produção de quadrinhos digital em andamento, mas este ano de 2019 eu passei mais tempo doente na cama do que fora dela. A sorte é que eu tenho contado com uma boa paciência dos meus apoiadores (valeu mesmo, pessoal), mas isso não tem contribuído muito para que eu consiga novos.

Pra piorar, a política do Bolsonaro/Guedes foi devastadora para área cultural em que eu trabalho, em especial o mercado editorial, que já vinha mal das pernas do governo Temer. Com isso, os trabalhos minguaram, e a minha renda também, tornando tudo ainda mais difícil de ser feito, adiando ainda mais os planos com meus quadrinhos.

Não tenho perspectivas de que a situação política e econômica no Brasil melhore para 2020, mas espero que minha situação pessoal se estabilize um pouco para que eu possa me organizar melhor e colocar esses planos doidos pra funcionar. Afinal, é em momentos de crise que loucuras como essa que estou propondo tende a dar certo. Até porque, é a única forma que tenho de ainda conseguir continuar fazendo quadrinhos. Então pra mim será tudo ou nada.

 Em tempo, tenho me sentindo bastante isolado da comunidade de quadrinistas, já que não há mais ninguém produzindo quadrinhos dessa forma que explanei acima (pelo menos ainda não descobri). E, portanto, não tenho com quem discutir sobre isso, saber se estou fazendo certo ou errado. E o fato de eu não conseguir mais ir no eventos e estar em Osasco (já quase em Carapicuíba) contribuiu ainda mais com minha sensação de isolamento, já que é difícil convencer a galera a vir pra cá.

E ainda tem o fato de que toda vez que surge alguma discussão na comunidade de quadrinistas no Facebook ou no Twiiter, em geral tem a ver com questões tradicionais do mercado de quadrinhos. Questões essas que agora se tornaram irrelevantes pro tipo de produção anticapitalista que me propus a fazer. E aí novamente me vejo isolado dos outros quadrinistas.

Adaptando meus Quadrinhos para a Leitura em Celular

Screenshot do Celular

Como a partir deste ano não pretendo mais fazer quadrinhos impressos, apenas digitais, decidi abandonar o formato tradicional de página e adotarei o formato de pergaminho, que permite uma visualização e leitura melhor no celular. Minhas futuras HQs serão publicadas nesse formato.

Deste modo, também irei converter aos poucos as minhas HQs antigas para o formato pergaminho. Comecei os testes com o quadrinho que fiz com o Mario Cau para a minha antologia Cosmogonias. Vejam como ficou a primeira página desta HQ no novo formato.

Também estou fazendo testes de formato para a publicação de HQs direto em redes sociais como o twitter, o instagram e o facebook, adaptando-as as características de cada rede.

No twitter, por exemplo, estou aproveitando o esquema de thread para publicar as HQs. Você pode conferir o primeiro teste que fiz publicando quadrinhos no twitter através do formato de thread com a HQ Cosmogonia que fiz com o Jozz.

Uma das vantagens em se publicar quadrinhos no twitter aproveitando o formato da thread é que dá pra transformar depois em uma página html usando apps como o Thread Reader, permitindo mesmo quem não tenha twitter consiga ler.

A desvantagem do twitter é como as imagens aparecem na thread no formato 16:9, a leitura no celular na vertical fica um pouco prejudicada (mas na horizontal fica bom). Como eu quero que você leia sem precisar ampliar a imagem, ainda estou testando o tamanho de fonte ideal.

Enfim, ainda há muito o que se testar pra ver o que funciona na produção de quadrinhos digitais para as diversas plataformas e dispositivos, mas estou entusiasmado com esse desafio. E você pode me ajudar nessa jornada assinando o meu Catarse.

Lembrando que todos os meus quadrinhos publicados na Internet estão sob uma licença Creative Commons que permite a você compartilhar, copiar e redistribuir, assim como adaptar, remixar, transformar e criar obras derivadas, mesmo para uso comercial.

Um adendo. O formato pergaminho é o padrão usado nas webcomics de plataformas como o Tapas e o Web Toons Então adotando esse formato para minhas HQs, ficará fácil de publicá-las depois nessas plataformas. Mas elas continuaram a ser publicadas primeiramente no Petisco.

Mais um FIQ

Credenciais do FIQ

Depois de uma semana sensacional no Festival de Quadrinhos de Belo Horizonte, fiquei tão cansado que mesmo voltando pra Osasco e dormindo todo dia até mais tarde ainda não consegui descansar completamente. Mas é uma canseira que valeu a pena.

Estou muito feliz com a boa repercussão que Acelera SP teve em Belo Horizonte. Apesar da história estar localizada em São Paulo, isso mostra que o desmonte do Estado e a apropriação privada daquilo que é público ė um problema generalizado.

Apesar de toda a pendenga que o FIQ sofreu com a falta de verba (correndo o risco até do evento acabar), no fim o adiamento por um ano e a mudança da data para o primeiro semestre acho que acabaram sendo benéficos.

Só é uma pena que o FIQ tenha acontecido no meio dessa crise de abastecimento. Acho que o evento foi um pouco prejudicado por isso. Mas ainda assim teve um bom público e as vendas foram satisfatórias.

Frequento o FIQ desde a edição de 2007, sempre com estande ou mesa, vendendo meus quadrinhos. E agora tive a experiencia de ser um dos convidados e participar de um debate, que foi magnífico. Agradeço a organização do FIQ por essa oportunidade.

Para mim, voltar ao FIQ como convidado ė muito simbólico, pois na edição anterior do evento em 2015 eu estava passando pela minha pior crise de reumatismo e achei que nunca mais iria conseguir frequentar eventos de quadrinhos novamente. Este FIQ pra mim foi um renascimento.

Mesmo não sendo o evento que eu vendo mais, o FIQ é meu evento preferido de quadrinhos e mora no meu coração. É possível sentir uma forte aura de afetividade e amor que emana das pessoas durante o evento e nos revitaliza. E então você entende porque escolheu essa vida de quadrinista.

Vida longa ao FIQ.

Festival Guia dos Quadrinhos 2018

Festival Guia dos Quadrinhos 2018

Neste fim de semana, dias 14 e 15 de abril, eu estarei participando do Festival Guia dos Quadrinhos. Vocês poderão me encontrar na mesa MA32, ao lado do Juliano Kaapora, vendendo meus quadrinhos.

O evento acontece no Club Holms, Av. Paulista 735, próximo ao metrô Brigadeiro. Mais informações sobre o festival vocês podem encontrar no site oficial.

Mapa do Festival Guia dos Quadrinhos 2018

Demetrius Dante e a Zombie Walk SP 2009

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Essa é a primeira página de uma HQ que eu escrevi do Demetrius Dante e que foi desenhada pelo Laudo e arte-finalizada pelo Omar. Ela será publicada na segunda edição da revista do Sideralman, a ser lançada no fim deste mês. Aliás, essa revista também irá trazer uma HQ do Sideralman escrita por mim.

Tanto o Sideralman, o paladino de Nova-Luz, quanto o Demetrius Dante, o detetive do absurdo, são personagens criados pelo Will, e eu me sinto muito honrado por ele ter confiado em mim para escrever roteiros de seus personagens, ainda mais sabendo do meu estilo de humor surtado, nonsense e nada convencional que costumo imprimir em minhas histórias. =)

A trama dessa história do Demetrius eu reaproveitei de uma micro-hq dele de apenas duas páginas que eu já havia escrito pra segunda edição do Contos da Madrugada. Basicamente é o seguinte; zumbis de verdade invadem a Zombie Walk em São Paulo e Demetrius Dante tem que detê-los para impedir que a cidade se transforme num caos maior do que já é.

O que fiz então para essa versão da história que será publicada na Sideralman nº 2 foi aumentar o número de páginas e adicionar novos elementos a trama. Inclusive, as páginas estão cheia de referências a esse universo cult dos zumbis (que na verdade, acho que nem são mais tão cult assim e já cairam no gosto popular).

E por falar em Zombie Walk SP, a deste ano acontecerá no dia 02 de novembro (dia de finados), mas os percurso mudou, e diferente dos anos anteriores não será iniciada no MASP. O ponto de encontro dos mortos-vivos será na Praça da Patriarca, e a caminha zumbi seguirá até a Praça Roosevelt, onde os participantes da Zombie Walk poderão fazer uma parada na livraria HQ Mix e comprar a Sideralman nº 2 com essa minha HQ do Demetrius Dante. =)